Historicamente, foi-se criada a figura do negro sempre forte e resistente, como se ele tivesse que ser assim o tempo inteiro. No entanto, o livro de Tenório desconstrói todo esse estereótipo com protagonistas que encontram a subjetividade e um outro tipo de resistência ao racismo de outra forma: os livros.
Afinal, do que se trata “De Onde Eles Vêm”?
No romance quase que metalingístico De Onde Eles Vêm, acompanhamos a tragetória de Joaquim, um jovem negro e periférico que ingressa na faculdade de Letras em uma universidade pública gaúcha. Além da vida pessoal do protagonista, o livro perpassa a realidade de Joaquim frente a uma universidade não preparada para receber alunos pretos e periféricos, as histórias paralelas de pessoas que permeiam a vida de Joaquim e a formação de Joaquim como leitor.
Sobre o autor

Jeferson Tenório é um escritor, professor e pesquisador brasileiro. Iniciou a carreira de escritor com o romance O beijo na parede, publicado em 2013 e eleito Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores. É graduado em Letras e mestre em Literaturas Luso-africanas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, doutor em Teoria Literária pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, trabalha com os temas do colonialismo, pós-colonialismo, identidade e diáspora africana na pós-modernidade.
Em 2018, lançou o romance Estela sem Deus pela editora Zouk, livro que ganhou nova edição em 2022 pela Companhia das Letras. Diversos países possuem hoje os direitos autorais para suas obras, como Itália, Portugal, França, Inglaterra, Suécia, Estados Unidos, Bélgica e China.
Também escreveu o romance O avesso da pele (2020), que ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário no ano seguinte, no qual acompanha a história de um jovem que tem que lidar com a morte do pai, um professor negro. A obra foi alvo de censura, ao ser retirado de escolas da rede pública no estado do Rio Grande do Sul
Em 2024, publicou o romance “De Onde Eles Vêm”, que tem sido elogiado pela crítica e muito comentado nas comunidades literárias das redes sociais.


Negritude e Subjetividade
Por definição, subjetividade refere-se ao mundo interno e às percepções individuais. É a singularidade que diferencia cada ser humano. Algo subjetivo está baseado em experiências, opiniões e sentimentos próprios, que se moldam em diálogo constante com o mundo social. Para sujeitos negros, no entanto, esse mundo interno é atravessado por violências históricas e estruturas racistas que insistem em negar sua humanidade.
Como descreve Frantz Fanon na obra “Pele negra, máscaras brancas”, a experiência da negritude é marcada por uma “consciência partida”, um constante esforço de recomposição da própria identidade em uma sociedade que se recusa a reconhecê-la como plena. Discutir subjetividade, nesse contexto, é discutir também as feridas e os enfrentamentos de uma existência negra que resiste, reinventa e afirma o direito de ser complexa.


Essa questão não tem sido apenas observada na ficção como é o caso do livro de Tenório, mas a academia também tem se preocupado em estudar a subjetividade em corpos pretos. No artigo entitulado “Impactos do racismo na subjetividade de indivíduos negros” das assistentes sociais e pesquisadoras da Universidade Federal de Pernambuco, Laís Gonçalves de Jesus e Mônica Rodrigues Costa, o racismo opera como uma estrutura que não apenas marginaliza economicamente, mas também afeta profundamente o psiquismo e a construção da personalidade de pessoas negras. A experiência cotidiana do racismo impõe limites à subjetividade, moldando desde os afetos mais íntimos até as escolhas profissionais e acadêmicas. Não se trata apenas de exclusão material; trata-se de uma alienação racial que impacta a formação da própria consciência de si.
Em De Onde Eles Vêm, a subjetividade é o meio em que acessamos a história de Joaquim. Para pessoas negras, poder dizer “eu”, com suas angústias, dúvidas, desejos e fragilidades, é uma forma de resistência. Isso porque a sociedade brasileira, marcada por séculos de escravidão e racismo estrutural, historicamente nega essa possibilidade ao povo negro, reduzindo-o a papéis como o da força, da servidão ou da marginalidade. Quando Joaquim se forma como leitor, ele não apenas descobre os livros, mas também o direito de se imaginar para além dos limites impostos. A literatura, nesse contexto, se torna um espaço de resgate e invenção do próprio sujeito negro.
Em entrevista à AJN, conversamos com Jeferson Tenório, o autor em questão, Para iniciar a conversa, perguntei a ele se havia alguma inspiração que tenha motivado a escrever a obra:
Eu fui um aluno cotista, entrei pelo sistema de cotas. Então é ali início dos anos 2000, quando a gente não tinha ainda uma grande discussão, sobre a questão das cotas, quando você não tinha ainda um acolhimento, desses alunos na universidade, havia também uma espécie de envergonhamento também dos cotistas, um receio também de serem prejudicados ao serem identificados, como alunos cotistas.
Então, o que me inspirou, na verdade, foi toda essa geração, essa primeira geração de alunos cotistas, que começa lá na UNB, em 2002, e a depois vem ganhando força nas outras universidades. É inspirado também um pouco na minha trajetória, mas sobretudo é a experiência de uma geração inteira, uma geração que chega depois, nos anos de 2020, já com uma força bastante significativa nas universidades, também nas aulas, nas bibliografias, na validação de conhecimento, de saberes. Então, é o que eu tenho dito, que foi uma revolução silenciosa e eu tentei colocar isso em forma de ficção.
Você utiliza de uma técnica narrativa de forma não cronológica como se o protagonista estivesse lembrando para tentar buscar dentro de si e das histórias que permeiam o artista que um dia prometeram pra ele. Como você acredita que essa forma de escrita reverbera a individualidade e a complexidade do personagem?
Isso confere a ele umas singularidades, assim como todos nós somos singulares. Principalmente o primeiro capítulo, quando ele narra justamente a fuga dele e da família depois de viverem um momento perigoso na vida dele, mas é justamente aquele momento que vai dar um início de ele se entender como artista, de se entender como alguém que produz arte, que pode produzir literatura.
Eu prefiro explorar a subjetividade desses personagens através da lembrança, através da memória, porque é isso que nos faz singulares, o modo como a gente constrói o nosso passado para que a gente possa olhar para o futuro.
Durante a narrativa, vemos que Joaquim lê vários livros, porém alguns se destacam. O que te norteou para essa escolha?
Então, como o Joaquim entra na universidade em meados dos anos 2000, ainda com a implantação das cotas, ele vai encontrar uma universidade muito branca e europeia. Então, as leituras que ele faz são, na verdade, influenciadas por essa ótica. […] Ele precisa se apropriar para que ele seja validado. Além disso, ele é um bom leitor, ele gosta de ler, mas ele sente um certo deslocamento. […] ele chega no James Baldwin por causa da namorada que fala para ele ler o autor, e é interessante porque o Terra Estranha não é discutido na universidade.
Ele serve, na verdade, como um amparo da vida pessoal do Joaquim. Então, ele leva o livro para o trabalho, ele vai tendo essa conversa com o Rufus, com esse personagem, e que é muito diferente da relação que ele tem com o Proust, ou com o James Joyce, que é uma relação, muitas vezes, acadêmica, como se fosse uma obrigação. Mas, ao mesmo tempo, ele é um leitor sensível e consegue tirar o que há de melhor em todas essas literaturas. Então, ele não exclui esses homens brancos europeus, tira o que há de melhor, mas o que sustenta ele enquanto homem negro é o livro do James Baldwin, é o Terra Estranha.

Então, foi uma escolha consciente de pegar esses grandes ícones da literatura chamada universal e que é composta por homens brancos. É uma tentativa também de tirar do pedestal essas narrativas, que são tidas como difíceis, inacessíveis, e trazer para o resto do chão, como eu digo, trazer para o cotidiano. E, ao mesmo tempo, mostrar essa transformação do personagem, que sai do Proust e vai para o James Baldwin.

Qual é a principal mensagem que De Onde Eles Vêm traz para o leitor? E para o leitor negro?
Na verdade, os meus livros não costumam passar uma mensagem. Pelo menos, eu não tenho a intenção de levar uma mensagem.
Procuro oferecer pro leitor, e, sobretudo, pro leitor periférico negro, essa possibilidade de se humanizar. Essa possibilidade de ser frágil.
De não precisar estar com a guarda levantada o tempo todo. De ser reconhecido como alguém que produz conhecimento, que produz arte. Acho que De Onde Eles Vêm é essa tentativa também do direito ao encanto.
Do direito que essas pessoas negras periféricas têm em relação à arte, em relação à filosofia, em relação ao pensamento. E não só ligada à violência.
A gente sabe que corpos negros passam por violência todos os dias.
É só a gente abrir os jornais que a gente vê todo dia uma notícia terrível de violência, de morte, de preconceito. Mas a gente precisa construir um outro caminho. E esse caminho passa pela educação, passa pelos livros.
E, com toda a dificuldade que o Joaquim enfrenta, ele consegue ter isso muito sólido. Que o caminho dele é com os livros. É ao lado dos livros.
Tanto que, quando ele leva o Terra Estranha pra empresa, ao lado do Call Center, e perguntam pra ele por que ele leva aquele livro, já que ele não pode ler durante o expediente, ele responde que é pra ele não esquecer para onde ele tem que ir. […] Então, acho que o De Onde Eles Vêm é um pouco isso.
É lembrar pra esse público negro que a educação é importante, que o conhecimento é importante e que a gente tem direito a todo tipo de conhecimento. O “De Onde Eles Vêm” também é sobre não esquecer as origens, não esquecer de onde a gente veio. Porque, como diz o próprio James Baldwin, se a gente não sabe de onde a gente vem, a gente não sabe pra onde ir.

De Onde Eles Vêm não apenas propõe um mergulho nas camadas mais íntimas da subjetividade negra, como também reafirma o poder da literatura como ferramenta de emancipação e reconstrução identitária. A obra de Jeferson Tenório convida o leitor a repensar estereótipos, a valorizar as narrativas que partem da periferia e, sobretudo, a reconhecer a complexidade e a humanidade de sujeitos historicamente silenciados.