O documentário “Cheiro de Diesel“, dirigido por Gizele Martins e Natasha Neri, aprofunda a discussão sobre os traumas coletivos deixados pela presença das Forças Armadas nos complexos da Penha e da Maré, no Rio de Janeiro, entre os anos 2010 e 2015.
O final de 2010 marcou o início da ocupação militar nos complexos da Penha e do Alemão, que serviu como um teste para um novo modelo de intervenção militar e de segurança pública. Essa estratégia foi adotada porque o Rio de Janeiro se preparava para sediar dois grandes eventos internacionais: a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.
Com a necessidade de demonstrar ao mundo que o Estado brasileiro era capaz de retomar territórios controlados pelo tráfico de drogas, foram realizadas operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), sob o argumento de preservar a segurança durante os megaeventos esportivos. A GLO é uma missão autorizada pelo Presidente da República, na qual as Forças Armadas assumem, temporariamente, funções de segurança pública normalmente exercidas pelas polícias. A maior e mais conhecida dessas operações ocorreu no Complexo da Maré, onde a ocupação militar permaneceu por 14 meses, entre 2014 e 2015.
Naquele período, a cobertura da grande mídia, especialmente de jornais e emissoras de televisão, vendia a ideia de pacificação e de “território conquistado”. No entanto, por trás da narrativa oficial, o documentário evidencia que abusos de poder e violações de direitos humanos contra moradores das periferias eram praticados de forma silenciosa, permanecendo, em grande parte, invisibilizados pela mídia.
Dessa forma, “Cheiro de Diesel” ultrapassa o papel de registro documental e assume um confronto com a narrativa institucional do Estado ao dar protagonismo absoluto a quem viveu o terror na pele. A obra contribui para ampliar o debate sobre direitos humanos, violência de Estado e os limites da militarização como estratégia de enfrentamento à criminalidade, convidando o espectador a refletir sobre as consequências sociais dessas intervenções que são consideradas resposta para tudo. Não é à toa que o documentário conquistou dois prêmios simultaneamente no Festival do Rio: o Prêmio Especial do Júri e o prêmio de Melhor Documentário pelo Voto Popular, além de continuar ganhando destaque no cinema brasileiro.

É impossível falar desse projeto sem mencionar Gizele Martins, nascida e criada na Favela da Maré, Gizele é jornalista e comunicadora comunitária. A sua trajetória a tornou uma figura representativa da luta pelos direitos humanos e pela justiça social. E a sua dedicação em romper a censura imposta aos comunicadores lhe rendeu o Prêmio Vladimir Herzog, em 2024, bem como a autoria do livro Militarização e Censura – A luta por liberdade de expressão na Favela da Maré.
Além de vivenciar a ocupação militar como jornalista, ela também a vivenciou como moradora impactada. Bateu a curiosidade de saber mais sobre essa experiência e sobre o documentário? Então dá uma olhada no papo que batemos com ela logo abaixo.
Como surgiu a ideia e a coragem de denunciar a ditadura nas favelas através do documentário “Cheiro de Diesel”?
Gizele: O filme começou a ser pensado, produzido, gravado e editado há sete anos. São sete anos que a gente começou a fazer esse trabalho, e ele é a reprodução também de um longo trabalho que nós, comunicadores comunitários, fazemos nas favelas; mas que também pesquisamos, também atuamos, enquanto comunicador/morador das favelas, denunciando as violações do estado brasileiro a partir, principalmente, das suas polícias e do exército.
Então, a Natasha Neri me convidou para ser roteirista e pesquisadora; depois, eu viro diretora, narradora e protagonista do filme. Muitos dos materiais que estão no filme é parte também do livro que eu tenho, que se chama “Militarização e Censura: A luta por liberdade na favela da Maré”, que é a minha pesquisa de mestrado e também, a partir de muitos depoimentos, memórias e construções dos próprios fotógrafos, cineastas, comunicadores e moradores — não só da Maré, mas de outras favelas também do Rio de Janeiro.
Como a sua experiência como moradora e comunicadora da Maré influenciou na direção do documentário em comparação com um olhar externo?
Gizele: Influenciou em todo o filme, é uma narração que também é testemunho. “Cheiro de Diesel” tem um toque, sim, de comunicadora, de moradora e de Gizele, defendendo também uma narrativa de que ali precisava ter a voz “nossa”: moradores, comunicadores, e não a voz do Estado.
Então, quem assiste “Cheiro de Diesel” sabe que a voz do Estado está nos tanques — a gente não deu fala para o Estado —, a voz do Estado está no trauma que a gente denuncia, e não no exército sendo entrevistado […] Então todo material é feito a partir desse olhar de quem é de dentro da favela, denunciando e reportando a própria história.


De que forma o título “Cheiro de Diesel” resume a memória sensorial e o trauma deixado nos moradores?
Gizele: É uma frase que o Victor Santiago — morador da Maré, um dos protagonistas do filme, que teve seu carro metralhado, que hoje ele é paraplégico… Ele fala que a primeira coisa que ele sente, depois do tiro que ele levou, é o cheiro de diesel, cheiro do tanque. O filme também traz essa voz sensorial, o sentir, que é o barulho do tanque, dos helicópteros, do tiroteio, o silêncio da favela quando está tendo operação e o grito do morador dizendo que a polícia e o exército só mata trabalhador. O filme inteiro tem uma sonoridade que aflora o imaginário que quem está assistindo; é como se as pessoas entrassem na realidade de uma favela que, naquele momento, está tendo uma invasão militar.
Na sua opinião, de que forma a comunicação comunitária contraria a comunicação comercial e o Estado sobre a ideia de que as GLOs trariam paz?
Gizele: Naquele momento, em 2014, e também durante a intervenção militar no Rio de Janeiro, a voz da mídia comercial era de que estava tendo uma retomada na favela da Maré, na Copa do Mundo; que o exército estava retomando esse território; que era um território “neutro”, “da paz” — é exatamente isso que eles falam. E a voz da comunicação comunitária é uma voz que denuncia que território nenhum da favela, ou do Brasil, tem que ser retomado por forças militares na dita democracia brasileira. A gente não foi consultado se queria ter exército, e ninguém iria dizer que queria ter exército. A nossa voz da comunicação comunitária diz o contrário do que a mídia coloca, de que a intervenção foi um sucesso; a gente diz que tivemos tiroteio, prisões, invasões e estupros. E a voz da comunicação comunitária o tempo inteiro reportou tudo isso pela página “Maré Vive” em 2014; e, em 2017 e 2018, na intervenção militar do golpe, a gente percorreu outras favelas também, denunciando as violações do Estado e dizendo que não, a favela não merece tanque de guerra, não merece tiroteio, não merece estupro. Somos apenas pessoas que querem ter o direito à vida, o direito ao território e o direito de permanecer onde a gente está com melhoria, com direitos humanos; e direito humano não significa polícia, ou soldado ou tanque de guerra.

Que tipo de represália você e outros comunicadores ativistas sofrem ou podem sofrer quando se levantam e denunciam este tipo de violência?
Gizele: Desde quando foi feita a página “Maré Vive” — uma semana antes do exército entrar na Maré —, eu sofro ameaças, intimidações, silenciamento, criminalização; fui demitida de emprego, tudo por ter ousado, lá atrás, dar entrevistas, falar e escrever contra o exército brasileiro que estava silenciando e matando na Maré. Então, são treze anos que eu continuo tendo minhas contas invadidas, continuo mudando de casa, continuo seguindo protocolos para continuar vivendo e narrando. Mas essa não é a realidade só da Gizele, mas também de outros comunicadores não só da Maré, das favelas do Rio, mas dos territórios de resistência do nosso país. Por a gente ousar denunciar as violações cometidas pelo Estado nos nossos territórios de resistência — que é o campo, a favela, o quilombo, a periferia —, a gente sofre intimidações do próprio Estado.
Visto que “Cheiro de Diesel” recebeu duas premiações simultâneas no Festival do Rio em Outubro de 2025 (Prêmio Especial do Júri e Melhor Documentário Voto Popular) e está ganhando destaque em veículos midiáticos, o que você e a outra diretora do documentário, Natasha Neri, almejam para o futuro da trajetória dele?
Gizele: A gente está nesse momento de inúmeras sessões. Passamos por quase dez estados brasileiros nesses dois meses com o lançamento do filme nas salas de cinema; estamos também veiculando o filme como uma campanha de impacto nas universidades, nas escolas, nos territórios, nas favelas, com o objetivo de trazer uma campanha que é dizendo que a ditadura nunca acabou nas favelas. Esse é o nosso grande objetivo: formar uma grande campanha para que a gente não tenha garantias de lei ordem e operações policiais, tanques e “caveirões” nas nossas favelas do Rio de Janeiro.
Para concluir, como tem sido a reação do público que assiste a este documentário sem ter vivenciado essa história na pele? Como você avalia a importância do filme para fazer esse debate chegar a outras pessoas?
Gizele: É um filme que fala sobre as Forças Armadas, sobre o Exército, então é um filme que traz essa novidade. Porque a maioria dos filmes que fala sobre segurança pública no Rio de Janeiro falam sobre as polícias, então é um filme que traz essa novidade sobre esse tema, sobre a invasão do Exército, sobre a permanência do Exército nas favelas e nas periferias do Rio, colocando que é uma ditadura continuada, diferente de outros filmes sobre segurança pública.
Uma outra novidade é a partir da perspectiva de comunicadores e jornalistas da favela, diferente também de outras produções que já foram feitas a partir de quem fala sobre a favela e não vive a favela. E com o público a gente tem provocado esse debate da ditadura continuada, da censura continuada; e tem sido muito importante as sessões com debate, porque a gente consegue trocar sobre cidade, favela, comunicação, jornalismo, segurança pública, militarização, sobre como a gente se insere nessa cidade, mas também na sociedade brasileira para lutar por nossos direitos. Tem tido perguntas muito importantes assim, muitas colocações importantes, e muita gente também se identificando, principalmente quem mora nas favelas e periferias do Rio de Janeiro.
Então eu estou bem feliz com essa circulação. A gente já esteve em inúmeros estados do Brasil, agora a gente está fazendo a campanha de impacto para que esse filme chegue para quem está pensando a política e fazendo a política brasileira. A gente quer reparação nas favelas: para os comunicadores censurados, para o Victor, para a Drica. A gente tem que lutar para que deixe de existir essa ditadura nas favelas. A gente não quer mais GLO nem nas favelas do Rio nem no nosso país. Então, tenho gostado dos debates e tenho gostado de circular com o filme também.
Assista o trailer: