Para compreender um território, às vezes é preciso começar pelo lugar onde os mapas oficiais não chegam. Foi a partir de um mapa afetivo, produzido durante uma atividade em sala de aula, que Julia começou a organizar algumas das perguntas que mais tarde dariam origem à publicação Racismo Ambiental – Sobrevivendo no Inferno: Leituras Socioambientais a partir de obras dos Racionais MC’s.
Nascida no Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo, Julia é pesquisadora, educomunicadora, designer e graduanda em Educomunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Sua trajetória atravessa arte, comunicação, política e justiça socioambiental. No trabalho, esses campos não aparecem como caminhos separados, mas como diferentes formas de olhar para um mesmo território.
A publicação surge do álbum Sobrevivendo no Inferno, lançado pelos Racionais MC’s em 1997, para construir uma ponte entre cultura Hip-Hop, educação ambiental, educomunicação e ciência dos desastres. Ao aproximar as letras e experiências produzidas nas periferias de conceitos como risco, vulnerabilidade, território e racismo ambiental, a pesquisa questiona também quem pode produzir conhecimento e quais linguagens são reconhecidas quando falamos sobre ciência.
Em entrevista à Agência Jovem de Notícias, Julia fala sobre sua trajetória, a escolha dos Racionais como ponto de partida, as dificuldades de disputar o debate sobre racismo ambiental, a comunicação da crise climática e a necessidade de construir narrativas que não sejam movidas apenas pela tragédia. Para ela, reconhecer os conhecimentos produzidos nos territórios também significa reconhecer a potência de quem vive, cria e se organiza neles.
Quem é a Julia, de onde vem e quais caminhos de sua trajetória te levaram até essa pesquisa. Como surgiu a ideia de transformar essas experiências e inquietações na publicação Racismo Ambiental – Sobrevivendo no Inferno? O que você quer provocar ou colocar em debate com esse trabalho?
Eu sou a Julia Neres, tenho 26 anos, nasci na Zona Sul de São Paulo, no Capão Redondo, no Jardim Mirante. Meu curso é Educomunicação na USP. Tive essa trajetória entre arte, comunicação e política.
A história dessa pesquisa é um aglomerado de muita coisa. Surgiu a partir da vontade de falar sobre o meu território, a partir de uma ação que aconteceu em sala de aula. Minha professora trouxe uma atividade para fazermos um mapa afetivo.1
Meus mapas são muito parecidos com o metrô de São Paulo, porque estou em trânsito o tempo todo. Você tem que pensar sobre seu território para construir uma pauta, porque, se não, você se sobrecarrega e acha que precisa lidar com tudo. E não necessariamente você precisa terminar uma história com um ponto final. Pode ser um ponto de interrogação também, que te ajuda a encontrar um histórico.
Essa atividade também trazia a memória como direito e a questão do apagamento da luta popular de São Paulo. Depois, acabei fazendo isso em duas áreas, no contexto da ditadura militar, que é também onde a educomunicação surgiu na América Latina.
Eu já sabia o que queria tratar: justiça socioambiental. Tinha participado do curso da ÉNois, chamado “Como mitigar a desinformação socioambiental no contexto urbano periférico”, em 2024, e ganhei o livro Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil. Nele havia o “Triângulo da hegemonia” do racismo ambiental, que correlacionei com o “Triângulo da Morte”. No mesmo ano, fiz uma visita ao CEMADEN (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), onde tive contato com a forma como a ciência dos desastres trabalha a relação entre risco, vulnerabilidade e ameaça. Dentro disso, já tinha uma equação para explicar o desastre, e ela batia com a música “A Fórmula Mágica da Paz”, dos Racionais, e também com “Tempos Difíceis”.
Infelizmente, a gente pensa que questões ambientais vão ser apenas plantar árvores. É isso também, mas não necessariamente. As pessoas não conseguem relacionar isso com a violência que acontece do lado de suas casas.
Essa relação entre o cotidiano e o debate ambiental é uma das chaves da pesquisa. O racismo ambiental, nesse sentido, não aparece apenas quando uma enchente destrói uma casa ou quando um desastre ganha as manchetes. Ele também está ligado à forma como os territórios foram construídos, ocupados e atravessados por desigualdades ao longo do tempo.
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É nesse ponto que a cultura entra como outra possibilidade de leitura. O Hip-Hop, para Julia, não é apenas uma manifestação artística sobre o território. É também uma forma de produzir memória, conhecimento e interpretação da realidade.
Você sente que as pessoas ao seu redor estão se articulando em torno dessa temática? Existe uma sensação de que, apesar de falarmos muito sobre justiça socioambiental, nossas vozes ainda encontram uma barreira?
As pessoas ao meu redor geralmente são pessoas que trabalham com arte e comunicação. Eu sinto pouco o impacto de pautas anuais ou semestrais de acordo com o cronograma de políticas públicas. Por exemplo, no ano passado, com a COP30 no Brasil, tivemos uma grande popularização desse termo.
Eu me sinto mais guiada pelo terceiro setor. A grande pauta está falando o que reflete nas temáticas de questões de justiça socioambiental, sendo que é algo que todos nós precisamos lidar todos os dias. Já dizia Shirley Krenak: Todo mundo come terra, bebe água e respira ar, não são apenas os povos indígenas, então essa é uma responsabilidade de todos2.
Sinto que talvez a COP30 tenha sido esse ápice. Eu sou relativamente nova, fui migrando para isso ao decorrer da minha graduação e, com esse termo específico, “racismo ambiental”, talvez, por ter a palavra “racismo”, sinto que existem algumas barreiras a mais.
Tenho conversado com comunicadores que falam sobre a questão de o termo ser relativamente novo, apesar de Benjamin Chavis ter cunhado esse termo alguns anos atrás e de Carolina Maria de Jesus já ter narrado isso com sua vivência em Quarto de Despejo.
Eu particularmente nunca pensei em ser uma figura pública, influencer ou criadora de conteúdo. Eu quero criar outros tipos de conteúdo, porque sabemos como as plataformas funcionam, seja na questão de anúncios ou na questão de não necessariamente ser algo para educar ou informar. São formas para você sofrer, comentar ou exagerar para continuar naquela plataforma, mesmo que esse engajamento venha da raiva ou da discordância.
Um dos casos que tinha acontecido até então é que tinha saído uma notícia no Facebook. Eu nem uso Facebook, já é outro público, com outras questões, e o termo ficou com preconceitos e ofensas racistas.
Para além de falarmos sobre racismo ambiental, que envolve populações periféricas, negras, ribeirinhas, quilombolas e tantas outras que mais sofrem essas consequências, não conseguimos sequer falar sobre isso porque vamos receber falas racistas.
Infelizmente, é algo comum. Eu tinha esquecido que acontecia, então é difícil lidar com isso, com a pesquisa por conta disso também. Como você faz para fortalecer o termo, a pesquisa, se as pessoas são reais, têm carne, osso, família… é preciso estar com a saúde mental em dia para fazer esse tipo de trabalho.
Acaba que, independentemente de ter a palavra racismo, poderia ser só justiça ambiental. Mas os códigos que envolvem isso, por mais que sejam fortes, na perspectiva de um certo tipo de público, eles vão devolver com racismo epistêmico. “Como assim é pesquisadora? Racionais?” Então é um pouco complexo.
Por um lado, fico muito contente por trazer os Racionais e possibilitar esse tipo de conversa com a cultura Hip-Hop como um todo. Mas, por outro, ainda é um pouquinho puxado.
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A reação negativa que Julia descreve não está separada da própria disputa que atravessa sua pesquisa. Ao colocar uma produção cultural periférica em diálogo com a ciência e a universidade, ela também questiona uma hierarquia sobre quais conhecimentos são considerados legítimos.
O reconhecimento da arte como produção de conhecimento aparece, então, como uma questão política. Para Julia, artista e cientista não ocupam necessariamente mundos opostos. São pessoas que podem partir de experiências semelhantes e construir leituras diferentes a partir de suas próprias metodologias.
Você sentiu uma proximidade maior com o público por trazer um assunto mais complexo através de músicas tão conhecidas? Ou essa onda de raiva acabou dificultando que o conteúdo fosse compreendido?
Não. Eu sou muito agradecida, porque acho que cerca de 97%, 98% foi positivo, de identificação e reconhecimento. Acabo focando nas partes mais negativas, que são crimes, na verdade, porque acabam abalando um pouco minhas estruturas.
Mas sou muito agradecida por estar concluindo e sinto que consegui fazer bem o meu trabalho, porque tentei o máximo possível não instrumentalizar os Racionais. Ao decorrer da narrativa, trouxe começo, meio e fim.
E outra questão é que a artista e a cientista são as mesmas pessoas, com metodologias diferentes.
O racismo ambiental surgiu com a colonização. Por isso que o bairro é violento e tem racismo ambiental: porque pessoas foram violadas, escravizadas, raptadas e foram forçadas a destruir o território.
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Essa leitura também desloca a maneira como costumamos falar sobre desastre. Em vez de olhar somente para o momento em que uma tragédia acontece, a pesquisa convida a observar os processos históricos que construíram as condições para que determinados grupos estejam mais expostos aos riscos.
Você falou sobre a forma como as plataformas e os meios de comunicação lidam com essas questões. Parece que a tragédia vende mais. Como isso afeta a maneira como as pessoas enxergam a crise ambiental e a possibilidade de transformação?
A maioria das notícias que tem mais alcance propaga o desespero, o caos, a tragédia. E estamos querendo falar de vida, de felicidade.
Talvez seja por isso que não venda, porque estamos vivos apesar de tudo. Estamos tentando ficar felizes apesar de tudo e ter saúde mental apesar de tudo.
É importante ter dados, querer políticas públicas, mas também queremos estar bem. Quando estou mal e vejo pessoas que estão se movimentando à minha volta, fazendo coisas, trilhando o caminho delas, eu vejo que também consigo.
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A fala da Julia abre uma questão que atravessa não apenas o jornalismo, mas também a forma como a crise climática é comunicada. Existe uma urgência real em mostrar mortes, destruição, perdas e negligências. Mas existe também o risco de construir uma narrativa em que o futuro parece sempre ser apenas a repetição da tragédia.
Para ela, mostrar quem continua criando, se organizando e ocupando os territórios significa mostrar que, mesmo dentro dos inúmeros problemas que avistamos e percebemos através das mídias, existe vida acontecendo.
Quando pensamos em racismo ambiental, geralmente pensamos primeiro nas consequências que causam tragédias: quantas casas foram destruídas, quantas pessoas morreram. O que a gente deixa de enxergar quando reduz os problemas apenas aos impactos mais visíveis?
Sinto que é isso: o ponto final, o caótico, quando o infeliz acontece. Quando acontece um desastre socioambiental, a equação do risco de desastre, que eu chamo de “Fórmula Mágica da Paz” do Risco de Desastre, mostra isso. A música é muito densa. Eu vejo a mudança aqui. Seja Sobrevivendo no Inferno ou outras obras, elas já trazem essa percepção de uma mudança que nunca chega.
Acho importante falar do ponto final que infelizmente acontece. Acho que minha única questão é a pauta: acontece esse ano e depois a gente esquece. A gente teve uma pandemia agora há pouco e não tem tempo para absorver, porque temos que trabalhar.
Na minha trajetória, eu acabei direcionando as minhas pesquisas acadêmicas e profissionais para a questão socioambiental. Trabalhei com assessoria parlamentar e circulava em espaços. E nesses espaços que trabalhavam mais com o socioambiental era onde eu mais me identificava.
Era muito denso, muito difícil. Só que, quando estou no território, meu corpo fica melhor.
Quando lembro do cenário atual, da ocupação de coletivos, de atividades feitas com crianças, eu sinto que, quando estamos nesse território, seja numa corrida na quebrada ou no parque, estamos sentindo a raiva da violência, dos assaltos, de tudo que acontece, mas também estamos tentando sobreviver de maneiras diferentes.
Eu tenho pouca idade e preciso amadurecer profissionalmente, mas entendo que o jornalismo financia coisas, seja o desastre ambiental ou outras questões. Então acho que minha questão maior seria com o greenwashing em si, do que o que estamos contando.
O foco poderia ser na vontade de algumas partes, que poderiam estar vinculadas a isso de uma forma mais coletiva. O terceiro setor não é prioridade de ninguém. Precisamos muito do primeiro setor, mas o segundo só consegue atuar de alguma forma muito pontual, e isso acaba não tendo um processo de continuidade.
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A reflexão coloca em questão a própria lógica da cobertura ambiental: se a atenção pública se concentra no momento da tragédia, o que acontece com os territórios quando as câmeras vão embora?
Também existe uma disputa pela continuidade. Projetos, coletivos e iniciativas comunitárias podem produzir respostas e conhecimento, mas precisam de redes, políticas públicas e condições materiais para permanecer.
Você ainda está procurando respostas sobre como responsabilizar os setores público e privado e aproximá-los das iniciativas dos territórios. Que caminhos você tem encontrado?
Ainda tenho procurado essas respostas. Quero me inscrever no mestrado este ano, que tem a ver com como ser mais sustentável para fazer projetos socioambientais. Isso entra também na sustentabilidade da saúde financeira, saúde mental e em como aproximar os setores.
Tenho estado no momento de olhar para o passado, conversar com pessoas que já passaram por isso e lembrar que não fazemos nada sozinhos.
O assunto dos desastres é bem traumático. E tem uma questão da licenciatura que também é isso: como você vai ensinar para as pessoas sobre desastres socioambientais? Como você vai explicar para uma criança que o mundo é assim, mas que ela tem que manter a esperança, continuar otimista, mesmo que nós não estejamos fazendo nada.
Você não pode jogar esse tanto de coisa, porque, se não, vai afetar muito negativamente a cabeça dessa pessoa.
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A preocupação com a forma de ensinar sobre a crise climática revela uma contradição preocupante: como comunicar a gravidade do presente sem retirar das pessoas a capacidade de imaginar outro futuro?
Para Julia, a resposta passa também pela identificação. Ela conta que começou a pesquisar a partir da cultura que consumia quando era mais nova.
“Eu só fui aprender a pesquisar, no sentido de ir atrás de algo, com o Emicida, com uns 11, 12 anos”, conta. Ela via uma referência, entendia e ia ativamente pesquisar. A experiência aparece como exemplo de uma educação que não começa necessariamente na sala de aula, mas também pode surgir de uma música, de uma imagem, de uma narrativa que desperta uma pergunta.
Você fala sobre a necessidade de pressionar instituições e o poder público. Como construir uma mobilização que não aconteça apenas quando uma nova tragédia ou uma grande comoção toma conta das redes?
JN – Ainda estamos parados com a palavrinha com “R3”. Antes de entrar nas questões de clima, imagino que, para você pressionar as instituições, você precisa conhecer as pessoas, conhecer o trabalho delas, já que você vai precisar se articular com pessoas, que projetam, articulam, transitam.
Mas não acho que a gente consiga acessar espaços sem uma rede de apoio, de uma forma um pouco mais concreta. Então preciso conhecer pessoas, conhecer seus trabalhos e trajetórias para que eu alcance esse lugar de uma pressão mais massiva.
Que se não for organizada, ela pode só acontecer como um pico e ser esquecida.
A gente fala às vezes que as coisas acontecem como círculo e espiral e temos essa perspectiva um pouco negativa de que “infelizmente só conseguiríamos nos mobilizar caso acontecesse outro George Floyd”.
Só que a gente não quer que mais George Floyd aconteçam, porque já acontece todos os dias. Estamos muito anestesiados para conseguir nos mobilizar.
Então eu ainda, apesar de tudo, preciso acreditar que conseguimos nos mobilizar com coisas coletivas.
Eu me preocupo com isso. Eu me preocupo com ideias, eu me preocupo com pessoas para que eu consiga trabalhar em prol da vida e não em prol da morte que já aconteceu e acontece evidentemente.
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É essencial construirmos redes capazes de permanecer depois que a urgência desaparece. E, também é uma disputa pelo imaginário. Se a crise é comunicada apenas através do medo, da perda e da destruição, torna-se mais difícil imaginar o que pode existir depois dela. A esperança, nesse contexto, não aparece como ingenuidade. Aparece como uma condição para continuar agindo.
Se jovens de diferentes periferias brasileiras lessem sua publicação e começassem a olhar para seus próprios territórios a partir dessas perspectivas, o que você gostaria que eles passassem a perceber, questionar ou transformar?
JN – Eu acho que, antes de tudo, que a gente consiga se enxergar: ciência e arte são a mesma coisa, só que com o nome diferente.
Não colocar a arte quanto título “arte períferica, a cultura periférica”, as artes que envolvem corpos negros, indígenas, periféricos e LGBT em um lugar menor.
Por exemplo, hoje temos o contexto da Escola Nacional do Hip-Hop, que é uma iniciativa do Ministério da Educação dizendo que o Hip-Hop salva vidas através da educação.
Houve algumas críticas no sentido de que não temos que ter Hip-Hop, temos que ter tecnologia. Sendo que a “Fórmula Mágica da Paz” conta com uma parceria do CEMADEN, que é o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais , que é uma pasta dentro do Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação.
Então, não dá para falar que Hip-Hop não é tecnologia.
Não é difícil fazer uma arte que reverencia a si mesmo, a seu território, seus ancestrais, as pessoas que você admira e que te trouxeram até aqui.
Quando eu falo de Solano Trindade, aqui em São Paulo temos uma cidade que se chama Embu das Artes, e só se chama das Artes por causa do trabalho do Solano.
Então estamos numa dicotomia entre atraso e antecipação ao mesmo tempo. Estamos 500 anos atrasados por causa da colonização e, mesmo quando chegamos antes, não chegamos antes o suficiente.
E, para responder à sua pergunta, para sintetizar em uma palavra, seria identificação: se ver como potência, porque a gente faz coisas muito grandes o tempo todo. A gente só esquece disso porque não tem tempo.
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A resposta de Julia termina na identificação como uma forma de reconhecimento da própria potência.
Olhar para o território não significa enxergar apenas aquilo que falta. Pode significar reconhecer as pessoas que já estão produzindo conhecimento, cultura, cuidado e transformação dentro dele. Pode significar perceber que uma música também pode ensinar, que uma manifestação cultural também pode ser tecnologia e que uma comunidade também pode produzir ciência sobre aquilo que vive.
Precisamos aprender a falar sobre justiça ambiental não apenas a partir do desastre que aconteceu, da casa destruída ou daquilo que foi perdido, mas também a partir das pessoas que continuam criando possibilidades depois de tudo.
Em meio a crises que parecem grandes demais para serem enfrentadas individualmente, a identificação pode ser o movimento que salva vidas e salva o esperançar. Olhar para o próprio território e reconhecer que não se está sozinho. Há quem pesquise, quem comunique, quem eduque, quem ocupe, quem crie e quem insista em imaginar outros futuros.
Julia não oferece uma fórmula pronta para resolver essas contradições. Em vez de encerrar a discussão com um ponto final, ela deixa uma pergunta aberta: o que pode acontecer quando os conhecimentos que já existem nos territórios passam a ser reconhecidos como potência?
A resposta talvez não esteja apenas no que ainda precisa ser construído. Está também naquilo que já existe e que, muitas vezes, a pressa, a desigualdade e o excesso de tragédias nos fazem esquecer de olhar.
Porque, como lembra Julia, a gente faz coisas muito grandes o tempo todo. Só esquece disso porque não tem tempo.
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A publicação integra o projeto Segunda Impressão, do MIRANTE – Coletivo de Design Periférico, realizado com fomento do Programa VAI, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, em parceria com IBEAC, CEMADEN Educação (MCTI), Labidecom/ECA-USP, CPCD e Revista Letramento Socioambiental. Foi lançado durante o 4º Seminário “Vozes Daqui de Parelheiros – Comunicação e Memória Negra e Indígena”, realizado em junho de 2026, em Parelheiros, São Paulo.



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Imagem destacada: Livro no Rio Pinheiros. Labidecom ECA/USP. Julia Neres @julianeresdesigner @labidecomusp