Entre o chão e as telas, o desafio de (re)construir a credibilidade

Por Monise Berno
Edição Bárbara Batista
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Reflexões a partir do fórum da BBC sobre como a inteligência artificial e a misoginia alimentam o modelo de negócio das redes, e por que a disputa pela verdade passa pela comunicação popular.

Quando a mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos, enfrentar o avanço do ódio e das violências física e virtual exige coragem e coletividade.

Participei do BBC World Service Trust is Earned – O Desafio da Credibilidade, realizado dia 14 de agosto no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo, a convite da BBC, para acompanhar o dia de painéis, entrevistas, oficinas e apresentações focadas em debater a epidemia de desinformação e pontos importantes que a atravessam, como a regulação das plataformas, o uso de IA e a disseminação cada vez maior de discursos de ódio nas redes, sob a ótica da credibilidade. Neste artigo, desenvolvo algumas reflexões que foram alimentadas pelo que acompanhei durante o evento.

Discutir esses temas nos obriga a deixar de lado as respostas únicas e nos provoca a pensar soluções que não sejam apenas técnicas e individuais. A desinformação é uma realidade e checar fatos continua sendo essencial, mas essa epidemia não pode mais ser tratada apenas na lógica do desmentido. É preciso encararmos o fato de que a desinformação faz parte da estrutura social: vivemos em um ecossistema no qual a mentira foi transformada em modelo de negócios altamente lucrativo e o ódio gera engajamento.

Sob diferentes perspectivas, as falas que acompanhei foram unânimes: estamos lidando com uma indústria sofisticada, operada por infraestruturas autoritárias e violentas, que se alimenta dos nossos dados capturados pelas grandes plataformas – que dominam a presença digital – e pelo avanço da inteligência artificial generativa. 

A arquitetura das Big Techs vem sendo desenhada e aprimorada para priorizar a indignação, o conflito e o medo, sentimentos que mantêm cada um de nós hipnotizados em frente às telas e garantem o faturamento bilionário da publicidade digital. A cientista da computação, Nina da Hora, sintetizou essa verdade incômoda: “o ódio não é um acidente nas redes sociais, ele faz parte do modelo de negócio das plataformas”.

Durante sua entrevista ao vivo no evento, o médico Drauzio Varella foi certeiro ao analisar o que chamou de “epidemia de estupidez”. Enquanto a ignorância cede ao aprendizado, a estupidez contemporânea se ancora no viés de confirmação e na soberba de quem acredita já saber tudo. “Você só convence por meios racionais quem está disposto a ser racional; para as outras pessoas, você tem que emocionar”, destacou. Compreender esse limite é indispensável para enfrentar a desinformação e o avanço do discurso de ódio. 

O caso da “Dona Maria”, o avatar hiper-realista gerado por IA de uma idosa periférica que viralizou com discursos de revolta antipolítica e ataques ao Supremo Tribunal Federal é um bom exemplo do que a Comunicação chama de “persona”, criada para forjar espontaneidade e dar legitimidade à mensagem. Nesse caso, como em tantos outros, o público passou muito tempo sem saber que estava diante de um código matemático construído para gerar visualizações e dividendos através de ataques carregados de desinformação às nossas instituições. Nina Da Hora se faz uma pergunta que considero fundamental, e que agora trago a você que lê este texto: por que a escolha por uma mulher para essa personagem? E por que uma mulher negra?

Uma mulher negra, trabalhadora, pessoa comum, com fala simples, honesta, acima de suspeitas e de discursos partidários, que se parece com uma expressiva parcela da população é a personagem perfeita para gerar identificação a partir de dores que são compartilhadas por muitas de nós. As violências que as mulheres sofrem em quaisquer ambientes valida o discurso. E a escolha de criar uma mulher negra como avatar já é em si uma violência de gênero.

Entre violências físicas e virtuais 

A relação entre gênero e violências vai além da Dona Maria. Mulheres são mais que um dos arquétipos preferidos para veiculação de desinformação: elas são um dos maiores alvos de violência, junto com crianças e adolescentes, populações negras e indígenas e a comunidade LGBTQIAPN+, e essa violência não conhece fronteiras entre físico e virtual. 

A violência segue amplificada dentro das casas, nas ruas e no feed, normalizada por criadores de conteúdo e pela machosfera, que vem cada vez mais se consolidando como uma rede articulada de produtores de conteúdo misógino que recruta homens desde a adolescência sob o pretexto de “ressignificar a identidade masculina”. Começa com discursos aparentemente inofensivos sobre comportamento, atinge o negacionismo sobre direitos reprodutivos e violência doméstica e culmina na incitação direta ao feminicídio e ao ataque a mulheres públicas, jornalistas, parlamentares e ativistas.

Dados apresentados pela SaferNet Brasil à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) revelam uma investigação técnica sobre quase 15 mil endereços no Telegram que formam redes ativas de exploração e violência sexual contra crianças e adolescentes, além de canais de incitação à automutilação. Juliana Cunha, diretora de projetos especiais da associação, apresentou uma prévia de outra pesquisa inédita realizada pela SaferNet Brasil durante o evento da BBC. O estudo investiga deepfakes sexuais entre jovens no Brasil, e os dados não deixam dúvidas de que a violência não se restringe aos cantos escuros da deep web.

Toda essa máquina de conteúdo – os distribuídos nas plataformas e os gerados por IA – que mente e desinforma através do ódio está no topo das discussões sobre a nossa segurança e proteção nos mundos físico e digital (não que essas duas esferas ainda sejam passíveis de divisão). Essa crise de ódio é também uma crise ideológica e uma crise de credibilidade, e inserir selos de “falso” ou notas de rodapé com referências são estratégias louváveis, mas não são mais suficientes para solucioná-la.

A Educomunicação e a alfabetização midiática são caminhos urgentes, mas não podem se resumir a “ensinar a apertar botões”. É preciso enxergar as barreiras de raça e classe. Não faz sentido exigir letramento crítico abstrato de quem só acessa a internet por pacotes de dados limitados, que mora em lugares onde apenas o WhatsApp trafega livremente e o jornalismo de qualidade está disponível somente mediante pagamento. 

Da mesma forma, não se resgata a credibilidade entre jovens imersos em realidades violentas e escolas sucateadas apenas com discursos protocolares. Como observou a educadora paraense Marcela Castro durante sua apresentação no evento, para as novas gerações o meme e o jornal impresso disputam o mesmo espaço de sentido, e a gente precisa fazer mais do que ensinar a usar aplicativos.

E é exatamente aqui que a comunicação popular, periférica, construída de forma dialogada e colaborativa se torna possibilidade de resposta. Quando a comunicadora comunitária do morro, a liderança indígena na aldeia, a produtora de rádio comunitária ou a ativista dos direitos reprodutivos fala, ela não é um avatar monetizado; ela é a vizinha, a companheira de luta, a colega de sala, uma voz real que partilha as mesmas dores e a mesma língua.

Nenhum país resistirá a essa crise se permitir que crianças sejam exploradas em plataformas omissas, que mulheres sejam silenciadas pelo linchamento virtual e que os debates políticos (eleitorais ou não) sejam capturados por simulações sintéticas. A regulação das plataformas é urgente: o Estado precisa impor transparência aos algoritmos, responsabilizar o modelo econômico que remunera a calúnia e exigir a identificação clara de conteúdos gerados por IA.

Porém, a defesa da democracia e a (re)construção da credibilidade não são tarefas exclusivas dos tribunais e das leis. Elas dependem da nossa capacidade de ocupar e disputar o espaço digital, de criar redes de acolhimento contra a misoginia e de formular contra-narrativas pedagógicas que façam sentido. Abandonar as redes não é uma opção; é preciso disputá-las a partir de nossos lugares, com a esperança de que o que fazemos se parece pequeno quando olhado de forma isolada, mas se torna grande quando somado a tantas outras iniciativas, sem perder de vista que comunicação não é apenas o que se emite, mas é, fundamentalmente, o que o outro compreende e leva para si.

Imagem destacada: Leon Seibert/Unsplash

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Monise Berno

Curiosa das coisas da vida. Historiadora, pesquisadora em estudos alimentares, educomunicadora e profissional de comunicação. Coordenadora de Comunicação na Viração e na AJN em português.

Monise Berno

Curiosa das coisas da vida. Historiadora, pesquisadora em estudos alimentares, educomunicadora e profissional de comunicação. Coordenadora de Comunicação na Viração e na AJN em português.

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