Do internacional ao local: minha trajetória como jovem ativista

Neste artigo, revisito minha história, de quando era uma jovem estudiosa crescendo na periferia de São Paulo até me tornar Jovem Conselheira do Pacto Global da ONU e fundadora do Instituto Perifa Sustentável.

Por Amanda Costa

Fala minha lindeza climática 🙂

Eu estou aprendendo a ter orgulho da minha trajetória. Sou nascida e criada na Brasilândia, uma das maiores favelas da cidade de São Paulo. Venho de uma família interracial (pai preto e mãe branca) que ascendeu financeiramente por contas das políticas de incentivo do Governo Lula e puderam me entregar a maior riqueza da vida: a possibilidade de estudar.

Quando criança, eu era uma mistura da nerd com a esportiva. Eu amaaaaava ler e passava horas no quarto, mas também me encantava por jogos ativos e dinâmicos, como pega-pega, mãe da rua, esconde-esconde, queimada, rouba-bandeira, cada-macaco-no-seu-galho, e podia passar o dia inteiro brincando na rua (mas tinha que voltar antes do anoitecer, se não era chinelada na certa rs).
Meu jeitinho brincalhona e estudiosa fez com que eu desenvolvesse disciplina desde pirralha, e quando fui introduzida aos esportes (vôlei e futebol), consegui dar conta tanto dos estudos quanto dos treinos. Na minha adolescência, joguei futebol federada pela Portuguesa e posso dizer: foi uma experiência surreal!

Amanda e seu time de futebol. Acervo pessoal

Meu maior sonho enquanto jogadora de futebol era receber uma bolsa esportiva para fazer graduação nos Estados Unidos. Coloquei minha alma nesse sonho, mas infelizmente não deu certo e decidi voltar para o meu lugar de conforto, os estudos.

Ganhei uma bolsa parcial para estudar Relações Internacionais na Universidade Anhembi Morumbi e passei a jogar futebol de várzea, apenas por diversão. Como gosto muito de estudar, assim que entrei na faculdade busquei formas de aprofundar meu conhecimento acadêmico e lembro do dia em que conversei com a Eduarda Zoghbi, uma amiga querida que me contou sobre possibilidades de potencializar minha trajetória, tanto na universidade, quanto no trabalho voluntário, estágios e oportunidades nacionais e internacionais.

Um mentor é alguém que permite que você veja a esperança dentro de você

Oprah Winfrey

Sabe aqueles papos que explodem sua mente?

Pois é, minha querida leitora. Foi após essa conversa que decidi fazer iniciação científica, assumir uma posição de liderança no Engajamundo (ONG que era voluntária) e procurar um estágio na área que eu gostaria de trabalhar. Entrei num grupo sobre “Governança Global” e investi bastante energia nessa pesquisa, estudando Projetos de Cooperação Desenvolvidos pelos países da América do Sul para a implementação da ODS, com ênfase ao combate às mudanças climáticas.”

Por conta de todo esse envolvimento, recebi uma bolsa para participar da COP 23, Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Mas assim que cheguei lá, comecei a me questionar:  

  • Cadê as pessoas que se parecem comigo nesse espaço?

Essa pergunta borbulhava no meu coração, mas segui a vida. Continuei estudando, comecei a trabalhar como estagiária de projetos estratégicos numa multinacional japonesa chamada OMRON, assumi o Grupo de Trabalho sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (GT ODS) da ONG Engajamundo e mergulhei nos temas de crise climática, sustentabilidade e antirracismo.

Em 2019, fui aceita no UPG Sustainability Leadership Program, uma iniciativa global para jovens que tinham ideias de transformar suas realidades através de projetos de impacto social em seus territórios e minha vida mudou! Fui para os Estados Unidos participar de um treinamento de alto nível sobre projetos sustentáveis e comecei a desenvolver o primeiro protótipo do Instituto Perifa Sustentável.

Eu queria ampliar o debate sobre meio ambiente e sustentabilidade nas periferias, comunidades e favelas!

Desde então, um milhão de coisas aconteceram. Como internacionalista de formação, me joguei nas oportunidades internacionais e viajei para os EUA, Inglaterra, Polônia, Alemanha, França, Espanha, Holanda e Egito. Mas como ativista climática nascida na Brasilândia, eu sentia que não bastava apenas entrar num lugar de discussão teórioco e ocupar espaços nos fóruns de diálogos internacionais. Eu queria fazer algo pela minha quebrada!

A forma que encontrei foi através do trabalho coletivo, puxado pelo Instituto Perifa Sustentável. Com o apoio da Gabriela Alves, diretora de projetos da organização, mapeamos lideranças comunitárias e estamos fazendo um trabalho de aproximação com o pessoal ambientalistas da  Brasilândia [saiba mais aqui].

Agora temos um contato bem próximo com os Seu Quintino, Noêmia e Dona Meire e criamos um lugar de liberdade, intimidade e segurança entre nós. Lembro de Noêmia dizer:

Amanda, vem cá, deixa eu te fazer uma pergunta. Por acaso você já foi para algum fórum em outro país sobre meio ambiente?

Eu respondi, desconfiada do que viria em seguida:

Talvez… Mas porquê você está perguntando?

Ela disse:

Porque eu já falei mal de você. Como assim uma menina do meu bairro que fala sobre meio ambiente e eu não conhecia?

Eu disse: “Noemiaaaaaaaa!” e comecei a dar risada. Expliquei meu processo, minha história e trajetória. A real é que cresci escutando que a periferia era um lugar ruim, que nesse lugar só tem violência, escassez e miséria. Batalhei desde novinha, com disciplina e determinação, para sair da quebrada. Fui para fora do país, representei o Brasil em conferências internacionais e recebi o convite para me tornar Conselheira do Pacto Global da ONU, uma das principais organizações do mundo. Mas percebi que se eu não estivesse conectada com o meu território, todo esse trabalho perderia o sentido.

Eu não quero ser apenas ativista de rede social!

Colocar frase lacradora no twitter, hablar y hablar, mas não colocar a mão na massa para transformar o lugar onde nasci. Após eu explicar esse cenário para Noêmia, ela disse:

“Antes eu não gostava de você, mas agora eu gosto. Que legal entender sua trajetória e ver que você voltou. Agora temos muito trabalho pela frente.”

Querida leitora, eu percebi que fiz o caminho inverso, minha trajetória é marcada do global para o local. Ocupei espaços de poder, conversei com tomadores de decisão do Brasil e do mundo e agora quero fazer isso também a partir do nível local. 

Como jovem mulher preta que encontrou sua missão de vida, quero utilizar a minha voz, meu trabalho e meu ativismo para trazer garantia de direitos para os meus! Quero criar pontes e conectar mundos, trazendo o melhor de cada espaço e desenvolvendo formas criativas, decoloniais e antirracistas para causar um impacto positivo no nosso planeta.

Sei que a missão é complexa, mas sempre escuto meus amigos dizerem: “Amanda, você não está sozinha”. Somos muitos e estamos nos encontrando. Estamos criando a base para transformar a sociedade! <3

Amanda no Tedx Morro da Urca. Acervo pessoal

Ver +

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *