Mulheres, clima e poder: o que está em jogo no Gender Action Plan

Por Amanda da Cruz Costa
Compartilhe:
O Plano de Ação de Gênero da UNFCCC ofereceu um ponto de entrada para que mais mulheres ocupem espaços oficiais da ONU. Agora, um dos desafios é garantir que os mecanismos de implementação continuem sendo negociados, para que se torne uma ferramenta de luta para as defensoras do meio ambiente.
Imagem: Amanda Costa/Acervo pessoal

Não é nenhum segredo que a crise climática impacta meninas e mulheres de forma desproporcional. Ao redor do mundo, elas estão entre os grupos mais afetados pela elevação das temperaturas globais, não por uma vulnerabilidade natural, mas porque desigualdades sociais, econômicas e políticas limitam seu acesso à renda, terra, crédito, saúde, segurança, informação e participação nas decisões climáticas.

De acordo com o 6º Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a vulnerabilidade aos impactos climáticos é agravada por desigualdades relacionadas a gênero, raça, etnia, renda, idade e localização geográfica. Isso quer dizer que a crise climática não chega da mesma forma para todo mundo, ela aprofunda desigualdades e coloca mulheres (especialmente negras, indígenas, rurais, periféricas e empobrecidas) entre os grupos mais expostos aos seus impactos.

O GAP, Plano de Ação de Gênero da UNFCCC, foi criado com esse intuito, para garantir a igualdade de gênero nas políticas climáticas. Seu objetivo principal é que gênero seja tratado como uma pauta transversal com abordagem interseccional, isto é, presente em todas as agendas de negociações, como adaptação, mitigação, financiamento, tecnologia, capacitação, participação política e monitoramento.

Babado, ne?

E todo esse debate não é recente, não. A agenda de gênero dentro da UNFCCC começou a ser construída há muitos anos, com marcos importantes ainda no início dos anos 2000. Mas um dos momentos mais relevantes veio em 2014, na COP20, quando os países criaram o Programa de Trabalho de Lima sobre Gênero.

Três anos depois, na COP23, realizada em Bonn sob presidência de Fiji, os países aprovaram o primeiro Gender Action Plan, o famoso GAP. Naquele momento, o objetivo principal era criar um roteiro de ação para promover a participação plena, igualitária e significativa das mulheres no processo da UNFCCC e para isso, era necessário fortalecer políticas climáticas sensíveis a gênero em todos os níveis: dentro dos países, no secretariado da UNFCCC, nos órgãos constituídos e também nas demais agências da ONU.

Desse modo, o primeiro GAP teve duração inicial de dois anos e sua implementação foi revista em 2019, na COP25 – Madri. Naquele ano, os países aprovaram o Programa de Trabalho de Lima aprimorado sobre Gênero e um novo GAP, com duração de cinco anos. Já na COP29 – Baku, os países decidiram ampliar o Programa de Trabalho de Lima por mais 10 anos e, no ano seguinte, na COP30, o Belém Gender Action Plan foi finalmente adotado, válido de 2026 a 2034.

Ao todo, o Belém GAP possui 27 atividades e 98 entregáveis que buscam responder uma pergunta central: 

“Como garantir que a política climática não apenas reconheça que mulheres e meninas são afetadas de forma desproporcional pela crise climática, mas também crie mecanismos concretos para ampliar sua participação, financiar suas soluções e monitorar se os compromissos assumidos estão realmente saindo do papel?”

Para isso, o plano prevê 5 eixos de atuação:

  1. Capacitação, gestão do conhecimento e comunicação: formação de negociadoras, pontos focais de gênero e clima, produção de conhecimento e troca de experiências.
  2. Equilíbrio de gênero, participação e liderança das mulheres: presença de mulheres nas negociações, liderando e participando ativamente.
  3. Coerência: gênero como pauta interseccional, atravessando as agendas de adaptação, mitigação, financiamento, tecnologia, perdas e danos, transição justa etc.
  4. Implementação e meios de implementação sensíveis a gênero: garantir financiamento, tecnologia, capacitação e apoio para implementação.
  5. Monitoramento e relatório: desenvolvimento de indicadores, dados desagregados por gênero e idade, acompanhamento e prestação de contas.

O acordo ficou bem completinho, eu mesma virei uma grande fã! No entanto, nada de ilusão e ingenuidade por aqui. Um dos meus maiores receios é que o GAP vire apenas mais um documento cheio de boas intenções, mas com pouca aplicabilidade prática. As perguntinhas de sempre ainda continuam ecoando na sala:

  • Quem vai financiar? Como será a implementação? Como medir o progresso? E o mais importante: como garantir que mulheres negras, indígenas, periféricas, rurais, jovens e com deficiência estejam incluídas?

Durante a SB64, que aconteceu em junho de 2026 em Bonn, o debate deixou de ser apenas sobre a aprovação do plano e passou a girar em torno de sua implementação. Um dos principais momentos foi o diálogo de especialistas sobre dados desagregados por gênero e idade, previsto pelo próprio Belém GAP. Também houve um diálogo sobre financiamento climático sensível a gênero, uma pauta central para que o GAP não fique apenas no campo da linguagem bonita. 

A transformação dos sistemas acontece tanto com confronto direto quanto com estratégia e co-criação. Neste sentido, o GAP ofereceu um ponto de entrada para que mais mulheres ocupem espaços oficiais da ONU, sejam fortalecidas e garantam visibilidade para a pauta. 

Agora, um dos grandes desafios é garantir que os mecanismos de implementação do GAP continuem sendo negociados, para que assim ele chegue até às políticas públicas nacionais dos países, alcance os territórios mais atingidos pela crise climática e se torne uma ferramenta de luta para as defensoras do meio ambiente. 

Para isso, precisamos tensionar as estruturas de poder e garantir que todas as mulheres, principalmente as que estão localizadas no sul global, sejam priorizadas e colocadas no centro da tomada de decisão global.

Imagem destacada: UN Climate Change | Lara Murillo

Compartilhe:

Amanda da Cruz Costa

Amanda Costa é ativista climática, jovem embaixadora da ONU, delegada do Brasil no Y20, liderança Forbes #Under30 e fundadora do Perifa Sustentável

Amanda da Cruz Costa

Amanda Costa é ativista climática, jovem embaixadora da ONU, delegada do Brasil no Y20, liderança Forbes #Under30 e fundadora do Perifa Sustentável

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress