8 de março é para todas? A sociedade ainda deve às mulheres negras

Por Teresa Cristina Silva
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A luta das mulheres negras segue além de março, mas seu protagonismo ainda é apagado da história oficial do feminismo. É hora de mudar essa narrativa.

As águas de março fecharam o verão. Acaba-se o mês das mulheres, mas a onda feminista continua. Ela ganha mais atenção nesses 31 dias, impulsionada pelo 8 de março — Dia Internacional das Mulheres —, mas, para nós, essa é uma pauta permanente. Existimos para e pelas mulheres negras, e não dá para pensar feminismo sem elas. 

Bom, pelo menos é o que gostaríamos. “As mulheres negras sempre estiveram na linha de frente das lutas por direitos, mas suas vozes foram sistematicamente excluídas da narrativa oficial”, denuncia Andreia Alves, assessora do MUDE com Elas na Ação Educativa, com atuação em incidência política.

Na trajetória do 8M, há referências como a Marcha de Mulheres em Nova York (1907), a Conferência de Mulheres Socialistas (1910) e a greve das trabalhadoras na Rússia (1917). No entanto, pouco se menciona a participação das mulheres negras. Décadas antes, em 1851, a abolicionista e ativista afro-americana Sojourner Truth já denunciava esse apagamento com seu icônico discurso “E eu não sou uma mulher?”

Elas enfrentam não apenas desigualdades de gênero, mas também opressões estruturais de raça e classe. A interseccionalidade é, nesse sentido, um aspecto incontornável da luta feminista. 

A Lei Maria da Penha (2006), por exemplo, reduziu a violência contra mulheres brancas, mas, paradoxalmente, houve um aumento contra mulheres negras. De acordo com o Mapa da Violência (2015), entre 2003 e 2013, o feminicídio de mulheres brancas caiu 9,8%, enquanto o de mulheres negras cresceu 54%. Esse padrão persiste: das 3.373 mulheres assassinadas em 2022, 67% eram negras (Sistema de Informação sobre Mortalidade — SIM).

Brena Rodrigues, jovem ativista do MUDE com Elas e integrante da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, destaca que essas disparidades são um legado do período pós-abolição, quando dispositivos institucionais reforçaram o controle e a subalternização dos corpos negros. 

“A libertação da mulher branca ocorreu às custas da exploração da mulher negra. Enquanto umas conquistavam educação, trabalho e mais espaço político, as outras enfrentavam uma falsa abolição, sem reparações, submetidas à exploração, à desumanização e a jornadas exaustivas no trabalho e no cuidado das famílias brancas”, explica.

É importante sublinhar que o patriarcado é o inimigo comum, e a luta feminista precisa lutar contra todas as suas nuances. É urgente que o recorte racial seja central não só no 8 de março, mas em toda a agenda do movimento. “O apagamento histórico dessas vozes não impacta apenas o feminismo contemporâneo, mas também a formulação e a efetividade de políticas reparatórias para as mulheres negras”, conclui Brena Rodrigues.

Pelo trabalho digno e participação política

O 8 de março tem suas raízes nos movimentos feministas e trabalhistas do final do século XIX e início do XX, quando mulheres reivindicavam melhores condições de trabalho e participação política. Hoje, no MUDE com Elas, essas lutas permanecem, mas com um foco específico: as jovens mulheres negras.

Segundo dados da PNAD Contínua (2016-2021), analisados no estudo “A situação de jovens mulheres negras no mercado de trabalho”, do MUDE com Elas, essa parcela da população é a mais afetada pelo desemprego. Entre pessoas de 14 a 29 anos, a taxa chegava a 21,9%. A informalidade atinge 46,1% delas, percentual inferior apenas ao dos jovens homens negros (51,2%).

Além da maior precarização no mercado de trabalho, as disparidades salariais são gritantes: jovens negras ganham, em média, 46,6% do que recebem homens não-negros e apenas 66,3% da média geral da população ocupada.

A desigualdade se reflete também no trabalho doméstico não remunerado. Entre 2018 e 2019, 94,5% das mulheres negras exerciam essa função. Entre as mais jovens, a porcentagem é menor, mas ainda alarmante: 89,3%. Os dados serão atualizados na segunda edição do estudo, com previsão de lançamento em maio deste ano.

Por esses e outros motivos, o mês das mulheres precisa pautar também a luta pelo direito ao trabalho digno para as mulheres negras, ressalta Andreia Alves. “É um espaço fundamental para denunciar as violações e violências que enfrentamos no ambiente de trabalho, além de cobrar políticas públicas e compromissos do setor privado para reduzir essas desigualdades.”

Mulheres negras em marcha pelo Bem Viver

A luta das mulheres negras não se limita ao mês de março, é claro, é constante. No Brasil, a Marcha das Mulheres Negras, com a edição nacional de 18 de novembro de 2015, foi um marco nessa trajetória.

“Mais do que um evento, foi um processo de fortalecimento coletivo”, destaca Andreia Alves. Dez anos depois, a marcha retorna para sua segunda edição, em 25 de julho — Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha — em Brasília (DF). A reparação histórica e a construção do Bem Viver serão as pautas centrais.

O conceito, abordado pelo economista e político equatoriano Alberto Acosta no livro O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos (2016), propõe uma existência baseada na harmonia com a natureza, reciprocidade, solidariedade e oposição à lógica da acumulação primitiva.

Na prática, trata-se da reivindicação do direito à vida, à natureza e aos bens comuns, princípios historicamente negados às mulheres negras. Ainda assim, ao lado dos povos indígenas, elas seguem como as principais guardiãs dessas lutas.

Créditos de imagem: Marcha 8M 2025 em São Paulo. Foto: @fotografia.75 e @lucasport01. Reprodução Mídia Ninja.

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