O Dia Mundial da Justiça Social, comemorado em 20 de fevereiro, foi instituído pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A data tem como objetivo promover a reflexão sobre questões centrais que afetam a sociedade, como a pobreza, a discriminação, o desemprego e outras formas de exclusão e marginalização. É um momento para destacar a importância de políticas e ações que busquem um mundo mais justo, igualitário e inclusivo para todos.
A justiça social está intimamente ligada à promoção da igualdade de direitos e oportunidades para todos os indivíduos, independentemente de gênero, raça, etnia, religião, cultura ou deficiência. Nesse contexto, gostaria de refletir sobre o assunto a partir de uma produção audiovisual brasileira: ‘Que horas ela volta?’, um filme que nos apresenta diversas camadas da desigualdade social em nosso país.

Fonte: Wikipedia
Que horas ela volta?
O filme ‘Que horas ela volta?’ narra a história de Val, interpretada por Regina Casé, uma mulher que, vinda de Pernambuco, vai para São Paulo em busca de uma vida melhor para a sua filha Jéssica. Val trabalha como babá do Fabinho, filho de um casal de classe alta, e, após treze anos, continua morando na casa dos patrões, desempenhando não só o papel de cuidadora do filho deles, mas também de responsável pelas tarefas domésticas.
A trama se intensifica com a chegada de Jéssica à cidade. Determinada a prestar vestibular para a USP, Jéssica se muda para a casa dos patrões de sua mãe, o que gera mudanças significativas nas dinâmicas familiares.
(Alerta de spoilers abaixo!)
A desumanização das empregadas domésticas
Val é a representação de todas as mães que buscam o melhor para seus filhos, mesmo que isso as coloquem em situações de vulnerabilidade. Com tantos anos de trabalho para a família, é possível perceber que todo o cuidado que ela gostaria de dar a Jéssica, sua filha, ela transfere para Fabinho, filho dos patrões.
Em determinado momento do filme, a patroa, Bárbara, cita uma frase clássica que as trabalhadoras domésticas ouvem: “Você é praticamente da família”, como uma forma de suavizar e isentar todos os abusos de poder que acontecem dentro da casa.
A realidade, porém, é outra. Durante o filme, é possível observar o grande muro que separa as duas realidades entre a Val e a família. Quem está assistindo ao filme talvez note essas diferenças, mas é interessante perceber como a Val, que está inserida naquele contexto, não percebe – muito pelo contrário, ela acredita nos patrões e apenas quer agradá-los. Ela não questiona as decisões, apenas aceita. Ela acha que o lugar dela é no quarto dos fundos.
A submissão de Val não é justa, mas é comum. Observamos como isso muda com a chegada de sua filha na casa dos patrões – no início, sua chegada não é um problema, mas quando Bárbara percebe que Jéssica não “irá se comportar” igual a mãe, acatando e não questionando, a acolhida dos patrões muda completamente.
O acesso à educação como forma de mudar de rota
A personagem da Jéssica é muito importante para o desenrolar da história, pois, mesmo vindo do mesmo lugar que Val, a filha se mostra totalmente o oposto a partir do momento em que ela questiona e não se rebaixa frente às falas dos patrões.
Ela chega em São Paulo determinada a prestar o vestibular para estudar Arquitetura na USP, uma das melhores faculdades do país. A notícia, entretanto, gera desconforto por parte dos patrões de Val, pois eles duvidam da capacidade da jovem em relação aos estudos.
O fato da personagem buscar nos estudos uma forma de mudar de rota é um ponto chave no filme, pois mostra que o acesso à educação pode mudar as realidades, garantindo que o indivíduo tenha conhecimento dos seus direitos como cidadão e possa ter uma dignidade humana.
Durante o filme, Jéssica vai percebendo a realidade que a mãe está vivendo e não consegue compreender como ela se colocou nesse lugar. Ao invés de apoiar a filha nesses momentos de questionamento da realidade, Val discorda do discurso e comenta que a filha quer ser melhor que os outros.
Cenas que parecem simples, como sentar à mesa para tomar café e dar um um mergulho na piscina, são colocadas para mostrar como Bárbara quer deixar evidente que Jéssica e Val não pertencem à mesma classe social que ela. Para garantir que o recado fosse claro, após pedir que Jéssica e Fabinho saiam da piscina, Bárbara inventa que encontrou um rato na piscina para que ela fosse esvaziada e que ninguém – aqui, ninguém refere-se a Jéssica e Val – entrasse na água.
A libertação de Val
Lá no início foi mostrado que o objetivo de Val era dar uma condição melhor de vida para a filha e isso acontece quando ela descobre que Jessica foi aprovada no vestibular. Ali, é possível ver a realização de um sonho coletivo entre mãe e filha.
Com essa notícia, Val fica tão feliz que comemora entrando na piscina dos patrões. Essa cena, apesar de simples, mostra a protagonista se libertando de todas as proibições que a prendiam durante todos esses anos, dando coragem para tomar decisões grandes.
Esse momento se dissolve quando Val descobre que Jéssica tem um filho – e ela está fazendo com ele justamente o que a Val fez com Jéssica há treze anos em busca de condições melhores para viver.
Decidida a quebrar essa narrativa que estava se repetindo diante dos seus olhos, Val pede demissão e resolve cuidar da filha e do neto, conhecendo a dor que é ficar longe do filho. Assim, Jéssica poderia focar nos estudos e não se martirizar pensando no filho em outro estado – além disso, finalmente ela receberia o cuidado da mãe, depois de todos esses anos.
Para além das telas
Ao pensar sobre justiça social, é importante saber que o caso retratado no filme é um dos mais comuns que acontecem atualmente. A história da Val terminou para nós com um esperançar para ela e sua família, mas a realidade é um pouco diferente.
Uma pesquisa lançada no final de 2023 mostrou que o Brasil tem cerca de 6,08 milhões de empregados domésticos. Destes, 91,1% são mulheres – muitas histórias parecidas com a Val do começo do filme, vivendo na informalidade, sem seus direitos trabalhistas garantidos e ganhando menos de um salário mínimo por mês.
‘Que horas ela volta?’, além de ser um retrato da desigualdade social, é um convite à reflexão sobre as estruturas de divisão de classes. A jornada de Val durante o filme mostra que a justiça social não é um caminho fácil, mas que é essencial. É preciso abrir os olhos para essa realidade nada distante do que estamos vivendo e criar, juntos, uma possibilidade de um futuro mais igualitário e com oportunidades para todos os indivíduos.
—