Correspondentes: um livro sobre o significado de ser jornalista internacional

“Todo jornalista namora a história.” A primeira frase do prefácio do livro “Correspondentes”, escrita pelo diretor-geral de jornalismo da Globo Ali Kamel, certamente chama a atenção de qualquer um,  mas especialmente dos fãs  — assim como eu — da rotina de um jornalista.

Por Sara Pimentel 

Sobre o livro 

     Correspondentes: Bastidores, histórias e aventuras de jornalistas brasileiros pelo mundo reúne 20 jornalistas experientes e extremamente comprometidos com o profissionalismo em um livro que apresenta relatos vindos de diferentes locais do globo, em momentos históricos de tensão e agonia, como foi o caso de Ernesto Paglia durante a Guerra Irã-Iraque em 1988 e a cobertura da Primavera Árabe na Tunísia e Líbia por Marcos Losekann, em 2011. 

    No início de cada capítulo, há uma foto e uma breve história sobre a trajetória de cada jornalista até o momento em que são convocados para a primeira das missões que serão contadas ao longo do livro. No final de cada relato, é possível encontrar o QR Code para ver todas as reportagens citadas e também há um pequeno acervo de fotos no fim do próprio livro para os leitores assistirem e verem o trabalho dos correspondentes pelo mundo.

“O olhar brasileiro sobre a história do mundo”          

      Durante a leitura do livro, fui apresentada a diversas histórias e aventuras, como a cobertura de Pedro Bial na queda do Muro de Berlim — evento que marcou o término da Guerra Fria e o rompimento da divisão entre Alemanha Ocidental e Oriental —  o encontro da jornalista Ilze Scamparini com o Papa Francisco durante a sua primeira viagem internacional como papa em 2013, e o Atentado às Torres Gêmeas, nos EUA, em 2001, coberto por Jorge Pontual. 

O capítulo da primeira correspondente brasileira, Sandra Passarinho, me chamou atenção e se tornou um dos meus favoritos.  Aos 24 anos, a jornalista recebe uma proposta de última hora para cobrir um dos eventos mais importantes do século XX: a Revolução dos Cravos, em Portugal, 1974. No relato, é possível notar não somente o pioneirismo como as dificuldades que enfrentou durante a viagem, para a edição — na época, ainda em fitas cassetes — e a produção do texto. 

Sandra, assim como outros destes profissionais, com suas características e peculiaridades de sua prática jornalística e de escrita, tiveram o compromisso de transmitir a informação, convivendo com perigos ou falta de recursos. Na primeira página sobre a proposta de viajar para Portugal, Sandra conta sobre a rapidez e a correria da sua viagem, o que levou a separar uma pouca quantia em dinheiro e a aterrissagem em Madri até chegar em Lisboa de carro em 12 horas, nem chegando a comer direito. Além disso, ela também comenta sobre a busca por informações nas manifestações, locais em que a polícia reprimia os adeptos ao movimento com muita violência, o que comprometia a segurança dela e do cinegrafista. 

Além disso, a repórter também comenta sobre o seu trabalho sendo correspondente na Espanha, na morte do ditador Francisco Franco, inaugurando uma nova página na história: a democracia. Não só a democracia renascendo no país, mas os velhos pensamentos típicos de regimes ditatoriais que ainda demorariam a ser apagados de vez da sociedade, como o machismo: quando o atendente do hotel onde ela se hospedou perguntou se “seu chefe” era o cinegrafista que a acompanhava no trabalho: 

“O franquismo, entretanto, não viu seu fim assim tão depressa, porque era algo entranhado na cultura do país, principalmente nas pequenas coisas. […] No balcão, o atendente se voltou para mim e perguntou: “Onde é que está seu chefe? É aquele rapaz?” […]  O que era aquilo? Era o franquismo: o homem dando ordens a mulher, e a mulher não podia chefiar o homem, ela sempre vinha em segundo plano.” 

      Ainda sobre a experiência de ver a queda do franquismo espanhol, a jornalista também relata o incômodo dos colegas repórteres sobre a contradição de uma jornalista cobrir o estabelecimento da democracia em alguns países europeus, vindo de um país que ainda sofria com um regime ditatorial, onde a imprensa era tolhida. 

“Os estrangeiros ficavam muito curiosos. Parecia irônico para eles que se falasse sobre a democracia que surgia na Europa. Eu explicava que era justamente o contrário, essa era uma forma de falar desses assuntos em um momento em que a nossa imprensa não podia falar sobre o próprio país. Qualquer oposição ao governo militar era proibida, mas era permitido falar da oposição ao governo reacionário espanhol ou português.”

     Era o então olhar brasileiro sobre a história do mundo. Sandra, de forma inteligente e competente, articulou a sua reportagem sobre o surgimento da democracia na europa como uma maneira de chamar atenção sobre a situação brasileira interna, ainda que fosse proibida a crítica ao governo militar.

“Mas, ainda assim, a censura às notícias nacionais foi o que, acho, fortaleceu a ideia do jornalismo internacional naquele momento: a limitação do noticiário nacional. Precisávamos mostrar que o mundo estava vivo!”

A importância do livro para os que se interessam na carreira de jornalista 

      O livro é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que se interessa pelo jornalismo, apesar de oferecer um recorte enfático no jornalismo internacional. Em cada capítulo, nos diferentes perfis de abordagem do conteúdo da matéria, é possível identificar uma característica de um , como a sua “paixão por história”, a motivação pela busca da verdade e a vontade de levar informação ao público brasileiro. 

“Na verdade, eu sou um correspondente de guerra no Brasil e em outros países. Acompanho há mais quarenta anos a guerra nacional, não declarada, entre brasileiros, que mata mais de 50 mil pessoas por ano. O período de correspondente de que eu mais gostei não foi aquele em que fiquei fixo, no escritório no exterior. Foi antes e depois disso, quando eu fazia matérias internacionais de forma itinerante. Era só surgir uma grande história que eu ia atrás.” –  Trecho final retirado do capítulo escrito pelo jornalista Caco Barcellos sobre o período como correspondente em Paris, 2004. 

    “Correspondentes” foi uma verdadeira imersão e aprendizado para a minha construção profissional e a pessoa que se identifica com esse olhar aguçado e sedento pelos fatos e o “encanto” pela história sendo feita, como disse o diretor Ali Kamel no prefácio do livro. A obra vai muito além dos relatos, também é sobre persistência, dedicação e claro: o amor pela profissão e pelo jornalismo. 

Ver +

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *