COP e saúde mental: O que não te contam

Por Madalena Glaênia, Engajamundo

A primeira vez que ouvi falar sobre COP foi ao entrar no Engajamundo, quando ao ser recepcionista uma jovem super simpática, me falou sobre a história da ong, como foi criada e sua trajetória levando juventudes brasileiras para espaços de conferências internacionais, além da incidência nacional e territorial através de comunicação, ações de ativismo e advocacy local.

Através do Engajamundo consegui concretizar minhas causas e lutas através do trabalho conjunto com jovens diversos, trabalhando desde o empoderamento de jovens cearenses à aprovação de Emenda de Kigali que colaborará para redução de gases poluentes no meio ambiente. Todo esse trabalho me empoderou, me fez acreditar que eu posso contribuir, ser parte das soluções e que todo jovem pode, se tiver apoio, mudar sua realidade e a do seu local.

Estamos aqui em Novembro de 2022 e estou em Sharm-El-Sheikh, no Egito, fazendo parte da delegação do Engajamundo na COP com mais 18 jovens diversos, o que é um sonho! Porém, tem uma face que as pessoas não veem: estar aqui pode ser duro em muitos aspectos, inclusive mental.

É pouco falado sobre a saúde mental do ativista e lutar por causas no qual você tem experiências pessoais podem acionar gatilhos constantes, e em um ambiente imersivo, ainda mais. A realidade de cada pessoa é diferente e no ativismo isso pode ser percebido de forma acentuada: Enquanto algumas pessoas falam de previsões futuras, outras falam com base na sua vivências, acontecimentos que aconteceram ou estão acontecendo. 

A COP (27) É um espaço que grita “não era para você estar aqui!” e isso é dito na estrutura, na falta de acessibilidade, no idioma sem tradução, na credencial de observador, na dificuldade para conseguir beber água, ir ao banheiro e se alimentar bem, nos assédios, nas agressões e falta de respeito à mulheres, mas também, e na minha opinião o pior, o contexto geral fingir que você não existe, que é invisível.

É muito louco pensar que você pode lutar na base, mas a estrutura não quer você em lugar de destaque, ela quer que sejam as mesmas pessoas sempre: tomadores de decisões que não se parecem com a população e a bolha climática. A bolha climática é composta por pessoas famosinhas que estão sempre nos espaços, nas oportunidades, que são muito legais pelos stories e admiráveis pelo LinkedIn, mas na vida real, quando você enfim conhece, é colocado em situação cruel: fingem que não existe. Essas são as pessoas perfeitas.

Ao meu ver, a COP não deveria ser um espaço para pessoas perfeitas. A COP deveria ser um espaço de acolhimento, escuta e construção de mudanças para as pessoas verdadeiramente mais importantes: Quem já sentiu sede, quem já passou fome ou viveu insegurança alimentar; quem já viveu sem luz, quem teve direito de ir e vir tirado, quem já passou por abuso e sabe o quanto qualquer em qualquer crise mulheres e meninas são mais suscetíveis a violências e perdas de direitos; quem teve que largar o campo, quem teve que se deslocar por acontecimentos climáticos, quem perdeu seu lar, seus bens ou entes queridos por desastres naturais ou não.

Aspiro e lutarei pela descentralização desse espaço. Acredito que o Nordeste faz mudanças e resiste, e quero ver o Nordeste aqui! Quero ver os Interiores no centro do debate. Quero ver crianças, meninas e jovens de baixa renda sabendo que esses espaços são seus por direito. Por uma caminhada para a justiça climática. Por uma mudança estrutural nas conferências internacionais, já!

Image by Anemone123 from Pixabay 

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