Quando o futuro é programado sem nós: Tecnopolítica, justiça climática e territórios

Por Melyssa Fernandes Ramos Leandro
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Uma reflexão sobre quem decide, quem lucra e quem arca com os custos das tecnologias propostas para enfrentar a crise climática.

Durante muito tempo, a narrativa dominante dizia que a tecnologia seria o grande motor para enfrentar a crise climática. Painéis solares, inteligência artificial, satélites que monitoram cada centímetro da Terra, agricultura digital, geoengenharia… Tudo isso veio embalado pela promessa atrativa de que, se inovarmos o suficiente, simplesmente encontraremos a saída. Mas a conversa que se formou na Cúpula dos Povos aponta exatamente para o outro lado dessa história: por trás das soluções consideradas “verdes” existe uma trama de desigualdades, colonialismos e impactos silenciosos que dificilmente aparecem no debate oficial.

Quem realmente paga o preço da tecnologia climática? Essa foi a pergunta que ecoou durante o painel ‘Os mitos das soluções tecnológicas para a questão climática: os impactos das tecnologias como ferramenta climática’, realizado na Cúpula dos Povos.

A geopolítica tóxica do lixo eletrônico

Uma resposta expressiva para esta pergunta está no  envio de lixo eletrônico europeu para países africanos, como a República Democrática do Congo. Computadores, celulares e toneladas de cabos descartados são empurrados para regiões que não têm infraestrutura para lidar com esse tipo de resíduo. O resultado? Comunidades transformadas em depósitos tóxicos a céu aberto.

É o retrato de uma “transição verde” que só funciona porque alguém, em algum lugar, paga com seu território e sua saúde. A tecnologia, afinal, segue as mesmas rotas do colonialismo.

Tecnologia não é neutra — é política

Essa ideia apareceu com força na fala de Verônica, que usa charges para tornar acessível aquilo que costuma ficar restrito a especialistas: a forma como os sistemas tecnológicos são construídos e quem participa desse processo. A lembrança necessária veio de forma simples: toda tecnologia é uma escolha política.

Quem financia? Quem programa? Quem lucra? Quem é afetado?

E, talvez o mais importante: quem fica de fora da decisão?

Quando o código reproduz desigualdades

Se o debate sobre tecnologia ignora quem escreve os códigos, o resultado é previsível: repetimos nas máquinas as desigualdades que já existem fora delas. Um exemplo são os algoritmos de reconhecimento facial e a distribuição de benefícios sociais,  programados com vieses racistas e excludentes.

Como esperar que tecnologias construídas dessa forma enfrentem a crise climática com justiça?

Tecnologia para quem? E por quem?

Não existe tecnologia justa sem incorporar povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades campesinas como produtores de conhecimento. Esses povos já dominam tecnologias ancestrais essenciais, manejo sustentável, sistemas de cuidado da terra, cartografias vivas, preservação da biodiversidade. Mas são raramente reconhecidos como tecnologias, muito menos como inovação.

O impacto climático invisível da infraestrutura digital

O Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN) trouxe um ponto ainda pouco debatido: data centers, essas infraestruturas que permitem armazenar dados, rodar IA, fazer streaming,  consomem quantidades gigantescas de eletricidade e água. À medida que governos os apresentam como parte de uma “transição digital verde”, as comunidades enfrentam pressão hídrica e riscos ambientais.

É um debate urgente no Brasil, especialmente frente às novas normas nacionais e internacionais sobre energia e infraestrutura digital.

Direitos digitais, conectividade e soberania

Já o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) reforçou que telecomunicações são um direito básico. Sem internet de qualidade, sem transparência e sem proteção de dados, qualquer proposta tecnológica tende a reproduzir desigualdades.

O projeto Cartografias da Internet, que mapeia vulnerabilidades a partir das realidades locais, apresentado no evento, chama a atenção para a urgência de o Brasil construir suas próprias infraestruturas digitais, garantindo soberania, autonomia e respeito aos territórios.

Geoengenharia: respostas rápidas que criam novos riscos

O manifesto Hands Off Mother Earth alertou para os perigos da geoengenharia, vendida como solução rápida para capturar carbono ou alterar o clima. Segundo análises do Geoengineering Monitor, essas técnicas podem gerar novas instabilidades, dependências tecnológicas e desigualdades profundas, repetindo as mesmas lógicas que alimentaram a crise.

No fim, o desafio não é simplesmente criar mais máquinas.

O desafio é reconfigurar nossas relações de poder, território e cuidado.

Porque, se o futuro está sendo programado sem nós, talvez seja hora de reprogramá-lo a partir das vozes e territórios que sempre sustentaram a vida.

Saiba mais

https://www.etcgroup.org/es/content/politics-technology
https://www.cartografiasdainternet.org
https://www.geoengineeringmonitor.org/hands-off-mother-earth-manifesto-against-geoengineering
https://idec.org.br/porta-voz/lua-cruz
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