Os resultados de uma COP não se esgotam nas decisões formais tomadas pelas Partes: eles refletem e orientam o modo como se faz política climática no mundo. E não apenas no nível institucional — mas também no cotidiano: nas famílias, nas escolas e universidades, nas associações, movimentos sociais e ambientalistas.
A COP não é só o texto negociado e aprovado por consenso na Blue Zone, ao longo de duas semanas de encontros entre delegações diplomáticas. É também tudo o que acontece antes e depois, dentro e fora dos espaços regulados pela burocracia. É a Green Zone, que este ano acolheu mais de 100 mil cidadãos e cidadãs de Belém. São as dezenas de espaços de debate espalhados pela cidade, envolvendo pessoas muitas vezes ainda pouco conscientes da urgência climática. É a Cúpula dos Povos, com a participação de mais de 23 mil representantes da sociedade civil de 63 países.
Um apelo importante, mas ainda tímido
A verdade é que a COP30 foi encerrada no sábado, 22 de novembro, com um apelo significativo, mas ainda aquém da urgência climática. Belém lembrou ao mundo que o tempo está se esgotando; ainda assim, a resposta coletiva — o mutirão — avança mais com passos hesitantes do que com o salto necessário. Não surpreende que alguns observadores tenham falado de “Flop” mais que de COP.
E, no entanto, mesmo em um contexto marcado por tensões geopolíticas, crises econômicas e ataques políticos diretos — como os de Donald Trump durante a Conferência — o evento conseguiu manter vivo o espírito do Acordo de Paris. Essa resiliência do processo multilateral permitiu reforçar com vigor a necessidade de reduzir rapidamente as emissões e de triplicar os financiamentos para adaptação até 2035.
Como lembrou a ministra brasileira do Meio Ambiente, Marina Silva:
“Apesar de atrasos, contradições e disputas, existe uma continuidade entre a ambição da Rio ‘92 e o compromisso atual. Que possamos continuar capazes de cooperar.”
A Mutirão Decision: avanços sem nomear os fósseis
O documento principal da COP, a Mutirão Decision – Unir a humanidade em uma mobilização global contra a mudança climática, não menciona explicitamente os combustíveis fósseis, nem acolhe o apelo do Presidente Lula e de mais de 80 países por uma agenda que trate diretamente de fósseis e desmatamento. Introduz, contudo, novos instrumentos importantes para acelerar a transição energética: o Global Implementation Accelerator e a Belém Mission to 1.5. Essas iniciativas visam apoiar os países no desenvolvimento de caminhos nacionais para a saída dos combustíveis fósseis, aprofundando a trajetória iniciada em Dubai, em 2023. O objetivo declarado: superar a era das promessas e inaugurar a fase da implementação.
Direitos e justiça: o reconhecimento das pessoas de origem africana
Pela primeira vez na história das negociações climáticas da ONU, um texto oficial menciona explicitamente as pessoas de descendência africana.
Um resultado fruto da pressão dos movimentos negros e do trabalho diplomático de Brasil e Colômbia.
Essa referência reconhece duas verdades centrais: o papel das populações negras na proteção do meio ambiente e sua vulnerabilidade desproporcional aos impactos da crise climática. Embora seja um passo histórico, os movimentos ainda esperam por mais: representação oficial, maior participação política e financiamentos específicos são metas que permanecem em aberto.
Infância entra na diplomacia climática internacional
A COP30 também será lembrada como o encontro que colocou crianças e adolescentes no centro da agenda climática global. Não apenas pela mobilização sem precedentes — com 100 MiniCOPs das Crianças realizadas em 10 países — mas também por um resultado concreto: o documento principal cita explicitamente a proteção de menores frente aos impactos da crise climática. Um reconhecimento aguardado há anos por organizações de defesa da infância e especialistas em saúde pública.
“A inclusão desse tema representa um passo simbólico, mas significativo — embora ainda falte um compromisso claro sobre combustíveis fósseis, a principal ameaça ao futuro das crianças”, afirma João Paulo Amaral, do Instituto Alana.
Adaptação: os Indicadores de Belém e o desafio dos recursos
Entre os resultados mais relevantes está a aprovação dos 59 Indicadores de Adaptação de Belém, parte do processo da Global Goal on Adaptation. Inicialmente, pretendia-se chegar a 100 indicadores, mas o pacote final é considerado um avanço importante. Serão voluntários, mas úteis para orientar políticas nacionais. Também foi criado um processo bienal — a Visão Belém-Addis (COP32) — para desenvolver as diretrizes operacionais. O texto final pede a triplicação dos financiamentos para adaptação até 2035, destacando que os recursos atuais são “dramaticamente insuficientes”.
Povos indígenas e mitigação: da proteção das florestas à transição justa
Outro ponto importante foi o fortalecimento do papel dos povos indígenas na gestão sustentável das florestas, na conservação de estoques de carbono e na resiliência climática. O texto pede a integração de seus conhecimentos tradicionais e a proteção dos territórios dos quais depende sua sobrevivência.
A COP30 também introduz o Programa de Trabalho sobre Transição Justa, que propõe um mecanismo internacional para apoiar os países em desenvolvimento na transformação rumo a economias de baixas emissões. Entre as prioridades estão assistência técnica, inclusão social e coerência das políticas nacionais.
Balanço final: avanços reais, desafios enormes
A COP30 deixa como legado:
- reconhecimento histórico de grupos marginalizados;
- avanços concretos na Global Goal on Adaptation;
- forte impulso à financeirização da agenda climática;
- fortalecimento do papel das comunidades indígenas;
- primeiros passos para um mecanismo global de transição justa.
Mas persistem lacunas significativas:
- financiamentos ainda insuficientes;
- lentidão nos cortes de emissões;
- ausência de compromissos vinculantes sobre combustíveis fósseis.
O recado final é claro: o decênio decisivo já começou e exige ações imediatas, justas e globais. Belém demonstra que o caminho ainda está aberto — mas apenas um compromisso político contínuo, em todos os níveis, poderá manter o objetivo de 1,5 °C ao nosso alcance.