COP30: Começa em Belém a “COP da Verdade”

Por Allegra Zaia
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A COP30 começou em Belém, no coração da Amazônia, como a “COP da Verdade”. Durante duas semanas, líderes e negociadores de 162 países discutirão como transformar compromissos em ações concretas pelo clima.

A COP30 — a grande conferência mundial sobre o clima — foi oficialmente inaugurada na segunda-feira, 10 de novembro, em Belém, no coração pulsante da Amazônia. É a primeira vez que a cúpula climática das Nações Unidas acontece justamente ali, na região que mais expressa a urgência e a esperança do planeta. Durante duas semanas, cerca de 55 mil pessoas, entre líderes, ativistas e negociadores de quase 200 países do mundo se reúnem para descobrir como passar das promessas às ações e construir, juntas, novas alianças em defesa do futuro comum. Para recebê-los, 1.500 voluntários e uma mensagem firme do país anfitrião.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, abriu o evento com as seguintes palavras: “Esta será a COP da Verdade. É hora de levar a sério os alertas da ciência; é hora de encarar a realidade e decidir se temos coragem e determinação para transformá-la.”Em seu discurso, Lula fez uma dura crítica ao negacionismo climático: “Eles controlam os algoritmos, espalham ódio, disseminam medo, atacam as instituições, a ciência e as universidades. Chegou o momento de impor uma nova derrota aos negacionistas.”

O presidente ressaltou também o caráter social da sustentabilidade, destacando a importância de colocar as pessoas e as comunidades indígenas no centro da ação climática. Encerrando sua fala, fez um apelo à serenidade e à reflexão:“Espero que a tranquilidade da floresta inspire em todos nós a clareza de pensamento de que tanto precisamos.”

“Das promessas à ação”

Simon Stiell, secretário executivo da UNFCCC, dirigiu-se aos países participantes em tom provocativo: “A tarefa de vocês aqui não é lutarem uns contra os outros. A tarefa é lutar contra a crise climática juntos.” Ele foi direto ao ponto: embora o Acordo de Paris ainda seja considerado um marco positivo, é preciso fazer muito mais.“Aqui em Belém, devemos conectar o mundo das negociações climáticas às ações concretas da economia. Cada gigawatt de energia limpa reduz a poluição e cria novos empregos. Cada medida de resiliência salva vidas, fortalece comunidades e protege as cadeias globais de suprimentos das quais todas as economias dependem.”

O principal tema em discussão entre os 162 países são os novos Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), compromissos que cada Estado deve apresentar a cada cinco anos para reduzir suas emissões. No entanto, as promessas atuais dos governos ainda colocariam o planeta em um caminho de aquecimento de 2,5°C, muito acima do limite de segurança.

Uma década de aceleração e confiança

A Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS) pediu que fosse incluída na agenda uma revisão ambiciosa dos NDCs. Como afirmou Ilana Seid, embaixadora de Palau,“A meta de 1,5°C é a nossa estrela-guia.”

Entretanto, a proposta enfrenta resistência de grandes produtores de petróleo, como a Arábia Saudita e outros membros do grupo dos “Países em Desenvolvimento com Pensamentos Semelhantes” (Like-Minded Developing Countries), que preferem uma abordagem mais flexível ao Acordo de Paris, mirando o limite de 2°C.

Ainda assim, a comunidade científica alerta que ultrapassar o patamar de 1,5°C pode desencadear pontos de não retorno, com consequências irreversíveis para os ecossistemas.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reafirmou o compromisso das Nações Unidas em defender a meta de 1,5°C. Preocupado com a crescente perda de confiança das populações em seus líderes, ele destacou a urgência da ação coletiva: “Esta COP deve acender uma década de aceleração e de ação.”

O presidente da 30ª Conferência das Partes, André Corrêa do Lago, fez um apelo à confiança no processo de negociação: “Este é um espaço legítimo para que os países expressem suas preocupações. O importante é manter o diálogo aberto e construtivo.”

O caminho até a COP30 foi marcado pelo trabalho de Corrêa do Lago, que nos últimos meses enviou uma série de dez cartas à comunidade internacional, orientando a cooperação climática global rumo a Belém. Nessas mensagens, ele destacou as prioridades centrais: fortalecer o multilateralismo, conectar a ação climática à vida real das pessoas e das economias, e acelerar a implementação do Acordo de Paris. A décima carta encerrou a série com um chamado à coragem, cooperação e transformação, para que a COP30 se torne “o momento em que a humanidade restabelece sua aliança com o planeta e entre as gerações.”

Dez anos após o Acordo de Paris, o “batida do martelo”,símbolo da diplomacia climática, hoje ecoa amplificado pelos rios e ressoa entre as árvores da floresta, como um aviso e uma promessa à terra que acolhe o mundo.

Foto: Alex Ferro/COP30

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