Off target: fora do alvo. É o título do mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), que avalia o progresso global na redução das emissões de gases de efeito estufa e os compromissos assumidos pelos países em seus Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, do inglês Nationally Determined Contributions). Não é um título animador, pois deixa claro que estamos longe do necessário.
Após Paris
Dez anos após a entrada em vigor do Acordo de Paris, avanços significativos foram alcançados na redução das emissões graças a novas políticas, instrumentos de governança e tecnologias cada vez mais eficientes e acessíveis, que têm permitido a transição para energias mais limpas e a redução do consumo. Mas isso ainda não é suficiente para cumprir o objetivo central do Acordo de Paris: “limitar o aumento da temperatura média global a bem menos de 2°C até o fim do século em comparação com níveis pré-industriais, e buscar esforços para limitá-lo a 1,5°C”, a fim de reduzir significativamente os riscos e impactos das mudanças climáticas.
A má notícia é que a primeira meta, a de 1,5°C, é hoje considerada impossível de ser alcançada. Devido aos atrasos acumulados na redução das emissões, estima-se que essa marca será ultrapassada nos próximos 5 a 10 anos. No entanto, a magnitude e a duração desse excedente ainda podem ser limitadas, desde que haja uma aceleração decisiva na redução das emissões — o que implica abandonar os combustíveis fósseis o mais rápido possível. Essa aceleração também poderia limitar os custos cada vez maiores dos danos aos ecossistemas e às populações, especialmente nos países mais pobres e vulneráveis.
O alerta dos cientistas
Na abertura da COP30, a Organização Meteorológica Mundial divulgou uma atualização sobre o Estado do Clima Global, apresentando os principais dados da crise climática em curso.
Se, na última década, a temperatura média global já se mantinha cerca de 1,2°C acima do período pré-industrial (1850–1900), 2024 foi o ano mais quente desde 1850, com uma média de 1,55°C acima do período pré-industrial — o primeiro ano a ultrapassar a marca de 1,5°C.
As consequências ao redor do mundo são apenas um prenúncio do que podemos esperar nos próximos anos, aproximando-nos perigosamente dos primeiros “pontos de não retorno” (tipping points). Entre eles: o colapso das barreiras de corais tropicais; a degradação irreversível da Amazônia, que pode se transformar em savana; o derretimento da camada de gelo da Groenlândia; o colapso parcial da camada de gelo da Antártida Ocidental; a redução do gelo marinho do Ártico no verão; e o degelo do permafrost, capaz de liberar enormes quantidades de metano e CO₂, amplificando o aquecimento global.
Entre 1972 e o fim de 2023, a Groenlândia perdeu 6 Gt de gelo, contribuindo com cerca de 17 mm para o aumento do nível do mar. No mesmo período, a Antártida perdeu quase 5 Gt, contribuindo com aproximadamente 13 mm.
Eventos extremos cada vez mais intensos
Os impactos sobre as populações e os danos causados pelo furacão Melissa (em outubro, na Jamaica, Haiti e Cuba) e pelo tufão Fung-wong (em novembro, nas Filipinas) são apenas os mais recentes exemplos de eventos extremos mais frequentes e intensos — enchentes, ondas de calor ou secas.
As causas estão ligadas ao aumento da temperatura do ar e dos oceanos, que permite maior umidade e energia para eventos extremos, e às alterações na circulação atmosférica, que fazem sistemas de alta e baixa pressão se movimentarem mais lentamente. Isso prolonga ondas de calor e tempestades, intensificando seus impactos.
Hoje, eventos extremos afetam bilhões de pessoas e provocam impactos em cascata sobre vidas, meios de subsistência e sistemas alimentares, contribuindo para deslocamentos e migrações. Segundo o World Economic Forum, desde 2000 desastres climáticos já causaram mais de 3,6 trilhões de dólares em prejuízos.
A resposta esperada da COP30
O ano de 2025 caminha para ser o segundo ou terceiro mais quente da história, indicando que o superamento mais persistente da marca de 1,5°C está praticamente traçado. Com as políticas atuais, o aquecimento pode ser limitado apenas a algo abaixo de 2,8°C — colocando em risco também a segunda meta do Acordo de Paris.
O que fazer? É urgente desacelerar o aquecimento e trazê-lo de volta a uma “zona segura”, permitindo implementar medidas de adaptação.
Uma resposta urgente é esperada na COP30: é indispensável reduzir rapidamente a dependência de combustíveis fósseis — carvão, gás e petróleo — e iniciar uma transição energética profunda e acelerada. Essa transformação deve envolver os setores de transporte, indústria, geração de energia e consumo em edifícios, responsáveis por cerca de 68% das emissões globais.
Ao mesmo tempo, é necessário enfrentar o impacto do sistema alimentar, que — considerando produção, processamento, distribuição, gestão de resíduos e energia usada em toda a cadeia — responde por cerca de 37% das emissões.
Também é essencial proteger e regenerar ecossistemas: florestas, áreas úmidas, paisagens agrícolas, turfeiras e ecossistemas marinhos, com atenção especial às florestas tropicais, em especial a Amazônia.
Será difícil em Belém, já que as lobbyes dos combustíveis fósseis e do agronegócio farão pressão contra medidas ambiciosas. Por isso, será fundamental o papel da sociedade civil e especialmente da liderança dos povos indígenas amazônicos.
Os custos da inação podem ser altíssimos nos próximos anos: segundo o World Economic Forum, cada dólar investido em adaptação pode evitar até 19 dólares em perdas. A transição é vantajosa para todos.
Foto: Mídia Ninja
* Roberto Barbiero é climatólogo da Agência Provincial para a Proteção Ambiental da Província Autônoma de Trento.