A Carta que Redefine a Adaptação Climática: por que o financiamento deve ser antirracista

Por Henrique Mario de Souza para o Instituto Perifa Sustentável
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Enquanto a diplomacia climática global já se reunia em Belém para a COP30 para mais uma rodada de acordos, indicadores e metas apresentadas em salas refrigeradas, um novo documento confronta o centro do poder com o calor das quebradas, afinal, a emergência climática já tem endereço e CEP. Na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, a crise não é uma projeção futura: ela transborda com o esgoto nas enchentes e queima a pele no asfalto. É desse chão que brota a Carta Climática da Juventude da Brasilândia, um manifesto político que foi s levado à cúpula global. Não como um pedido de ajuda. Sim, como uma proposta de vanguarda para a governança climática, nascida do inconformismo de quem se recusa a apenas esperar e decide esperançar.

A Brasilândia, distrito da zona norte de São Paulo, é um símbolo vivo da contradição urbana brasileira. Com cerca de 283 mil habitantes e 52% da população declarada preta ou parda, é o oitavo distrito mais populoso da capital, mas também um dos mais vulneráveis para se viver. Entre morros, vielas, ausência de saneamento básico e poucas áreas verdes, a crise climática não é advertência ambiental futura, ela já transborda junto ao esgoto nas enchentes, se instala no mofo das paredes e queima a pele no asfalto durante ondas de calor extremo. Aqui, a mudança do clima não é variável atmosférica: é violência estrutural.

Em 2014, durante a crise hídrica que abalou São Paulo, bairros centrais encontraram alternativas enquanto famílias na Brasilândia ficaram até oito dias sem água. Já nos períodos mais quentes, temperaturas locais chegam a 42°C de carga térmica mesmo em meses de inverno, devido à falta de arborização e infraestrutura verde. Quando chove, o esgoto a céu aberto invade casas, destrói livros, móveis, memórias — enquanto aumenta o risco de leptospirose, hepatite A e doenças respiratórias. A lembrança das maiores taxas de mortalidade por COVID-19 no município reforça a denúncia: “Quem não tem saneamento adoece primeiro; quem não tem acesso à cidade morre mais cedo.” Não é coincidência. É política.

Assim nasce o conceito de racismo ambiental, estruturado há décadas por intelectuais negros e movimentos territoriais. Na Brasilândia, raça, gênero, classe e geografia não apenas organizam desigualdades, mas delimitam quem enfrenta altíssimo risco climático sem proteção do Estado. E é justamente por isso que a Carta denuncia o paradoxo da adaptação global: enquanto territórios como a Brasilândia estão na linha de frente dos impactos, permanecem na retaguarda do acesso a recursos. Segundo estudo recente, 82,3% das organizações periféricas atuam em agendas ambientais, mas apenas 15,9% acessam fundos específicos para o tema. O resultado é um sistema de financiamento climático tecnocrático e distante, que se diz verde, mas ignora quem vive onde o colapso é cotidiano: financiamento sem justiça é maquiagem verde.

A Carta Climática da Juventude da Brasilândia responde diretamente a esse modelo. O documento foi construído no âmbito da formação Vozes Climáticas, do Instituto Perifa Sustentável, a partir de rodas de conversa, participação comunitária, vivências e repertórios territoriais. Uma metodologia que se opõe ao distanciamento tecnocrático dos grandes fóruns internacionais: ela nasce de quem estuda, trabalha, pega ônibus lotado, cuida da família e enfrenta “o que o Estado chama de risco ambiental”. A carta é, portanto, política pública escrita do chão, não sobre o chão.

Mais do que relatar vulnerabilidades, a carta apresenta diretrizes concretas de adaptação climática ancoradas em três eixos centrais: Moradia e Território, Saúde e Saneamento, e Mobilidade. No primeiro deles, a juventude reafirma moradia como direito climático: 25,1% dos domicílios da Brasilândia estão em áreas de favela, grande parte localizada em áreas de risco. As enchentes que levam esgoto para dentro de casa não são fatalidades, mas resultados de uma infraestrutura historicamente negada. Por isso, a Carta exige melhorias habitacionais, regularização fundiária, energia solar comunitária e infraestrutura verde de grande escala, com foco na permanência, não na remoção. “Moradia é permanência. Permanência é justiça climática.”

No eixo Saúde e Saneamento, a juventude sintetiza: a crise climática se manifesta nos corpos. Entre mofo, doenças respiratórias e água contaminada, a saúde mental também se torna território de disputa, especialmente para jovens e mulheres. Por isso, a Carta propõe Saúde Planetária, ações de prevenção contínua em saúde climática e políticas permanentes de saúde mental climática nas Unidades Básicas de Saúde.

Já no eixo Mobilidade, a Carta denuncia o risco de que a chegada da Linha 6-Laranja do metrô transforme uma vitória histórica em gentrificação. Infraestruturas que deveriam produzir democratização podem resultar em expulsão territorial. A percepção é que até mesmo quando o “progresso” chega ao território, ele se volta contra o povo. A Carta defende planejamento antirracista e comunitário, linhas de ônibus circulares e tarifa social, entendendo mobilidade como política de vida, não de transporte.

Se alguém questionar se a Carta é apenas uma carta de intenções, o texto responde de forma inequívoca: é um documento legalmente fundamentado. Todas as propostas dialogam com dispositivos da Constituição Federal (Art. 1º, Art. 3º, Art. 225), com o Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001), com a Política Nacional de Saneamento (Lei nº 11.445/2007), com o Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020) e com a Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei nº 12.587/2012). Além disso, conectam-se aos compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris (Art. 7 sobre adaptação) e da Agenda 2030 (ODS 11 e 13), em consonância com a noção de direitos humanos ambientais.

A carta redefine a adaptação climática. É um manifesto insurgente que reposiciona o lugar da periferia na governança climática. Se a COP30 será a COP da implementação, a Carta da Brasilândia afirma: a implementação deve começar nos territórios que já resistem, não nos laboratórios acadêmicos nem nos gabinetes diplomáticos.

O documento lançado pela juventude é, simultaneamente, denúncia, proposta, metodologia e convite. Não se trata de pedir inclusão em sistemas injustos. Trata-se de recriar sistemas inteiros. Porque, se as cidades brasileiras forem adaptadas sem justiça racial, a crise climática se tornará apenas uma nova forma de manutenção da desigualdade. Porque se o debate seguir sobre carbono sem tocar em raça, território e renda, repetiremos a história da modernidade colonial. Porque financiamento climático sem justiça é maquiagem verde.

Mais que um resumo de problemas, a Carta Climática da Juventude da Brasilândia, desenvolvida de maneira comunitária pelo Instituto Perifa Sustentável, é um manifesto de esperança e mobilização. Em tom combativo, conclui: “O enfrentamento à crise climática precisa começar dos territórios mais afetados.” Convoca todos – gerações, comunidades, sociedade civil e governantes – para agir: “Nós queremos viver onde construímos laços… O que falta não é dinheiro, é decisão política”. 

A leitura completa desse documento e seu engajamento político são chamados para cobrar que (finalmente) as periferias percam o status de vítimas invisíveis e passem a ter protagonismo na construção de uma adaptação climática real, antirracista e territorial. Agora, a juventude da Brasilândia leva essa bandeira à COP30. Da Brasilândia para o Brasil e para o mundo, a Carta encerra com o aviso que deveria ecoar não apenas em Belém ou em São Paulo: “Nada sobre nós, sem nós. Brasilândia fica. Brasilândia resiste”.

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