COP 28 a partir das lentes de Amanda Costa

Saiba como foi a 28º Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU através da experiência da ativista climática Amanda Costa
Por Amanda Costa

Fala minha lindeza climática, beleza? 🙂 

Meu nome é Amanda Costa, sou internacionalista, criadora de conteúdo e ativista climática. Nasci, cresci e vivo atualmente na Brasilândia, periferia da zona norte de São Paulo e fundei o Instituto Perifa Sustentável, uma organização que tem como objetivo democratizar a crise climática para as periferias, comunidades e favelas.

Trabalhar com comunicação e projetos climáticos não é apenas um trampo, mas se tornou a minha missão de vida. A crise climática chegou com força na quebrada e falar sobre isso é como uma estratégia de sobrevivência. 

Apesar de não ser assunto cotidiano em muitas comunidades, a crise climática está sendo pauta de discussão global. Ano passado pude acompanhar e incidir na COP 28, a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU que aconteceu na cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Querida leitora, se você está interessada em saber os resultados da conferência, os pronunciamentos oficiais do Brasil ou a influência da sociedade civil, sugiro ler meus artigos abaixo:

Esse aqui será um texto mais intimista, tipo uma conversa entre amigas rs.

Preciso te contar que voltei para o Brasil extremamente ansiosa! O sentimento de insuficiência, incapacidade e incoerências invadiram o meu coração. A real é que eu trampei para caramba, foram 15 dias de noites mal dormidas, produzindo um montão de conteúdo para o Instagram e LinkedIn, fazendo diversas reuniões e articulações, escrevendo uma porrada de artigos, participando de eventos alto nível e participando de mesas oficiais da UNFCCC. Mesmo com esse tantão de atividades, eu voltei para o Brasil com o sentimento de que não fiz tudo que precisava ser feito.

Mas aí que está: o que deveria ter sido feito?

A indústria dos combustíveis fósseis está cada vez mais forte e sobra pouco espaço para ativistas verdadeiramente comprometidos com a causa fazerem algo efetivo. Eu estou cansada de cobrar tomadores de decisão interessados apenas no lucro, boa reputação e na próxima eleição!

Até porque: ISSO NÃO É JUSTO!

Não é justo que uma geração inteira tenha que sofrer as consequências que a inação dos mais mais experientes trouxe para nós. Falamos sobre as mudanças climáticas desde a década de 90 e poucos avanços foram feitos de fato!

A cada dia que passa percebo que essa pauta é um debate muito mais político e econômico do que social e ambiental. A galera que tem poder não está preocupada em salvar vidas e cuidar do nosso planeta, eles apenas querem potencializar seus lucros e manter o status quo. 

E quer saber de uma coisa?

Quanto mais falo sobre isso, percebo que estou fazendo tuuuudo que está ao meu alcance: estudo diariamente sobre a crise climática, comunico a pauta, crio projetos através do Perifa Sustentável… E por isso é extremamente injusto que eu me sinta ansiosa, insuficiente e incapaz! 

Desse modo, quero que esse artigo seja uma auto-celebração. Quero honrar meu trabalho na COP 28, lembrando os corres através de um diário de jornada. Até porque, o trampo de jovens ativistas é rapidamente esquecido, principalmente aquele que é feito por mulheres negras e periféricas. 

Querida leitora, agora que você já entendeu o motivo de eu escrever esse textão, vem comigo relembrar minha jornada na COP 28 🙂 

DIA 01

Embarquei para a COP do aeroporto Galeão, do Rio de Janeiro. Faço parte do Vozes Negras pelo Clima, uma rede de 11 ativistas climáticas negras e quilombolas e nos reunimos no Rio para viajar rumo a Dubai.

Lembro que foi bem desafiador enfrentar as 17 horas no avião. Eu estava menstruada e era a segunda vez que usava o copinho coletor, então imagina a complexidade de trocar o coletor no banheiro do avião.

Pooois é, nem só de close vive a gata climática.

Apesar da cólica, inchaço e malabarismo na tentativa de ter uma menstruação mais sustentável, consegui chegar relativamente bem na cidade do petróleo.

DIA 02

Chegamos no hotel de madrugada, era mais ou menos 4 horas da manhã.

Fomos para o quarto e logo tivemos que lidar com a primeira surpresa negativa: não tinha camas o suficiente para nós. Diferente do que negociamos, as camas eram de casal. Eu particularmente não ligo, mas muitas companheiras se incomodaram com isso. Uma coisa é dividir uma cama de casal por 3 dias, outra coisa é fazer isso por 15 dias. 

Foi estressante, tivemos que pagar uma taxa extra, mas conseguimos solucionar esse desafio. Ao final do dia, fomos para a COP e pegamos nossas credenciais.

DIA 03

No primeiro dia oficial, acompanhei a cerimônia de abertura.

Confesso que foi esquisito ouvir o sultão Al Jaber, CEO da Companhia Nacional de Petroléo de Abu Dhabi abrir as negociações e falar do seu comprometimento em desenvolver alternativas para os combústiveis fósseis.

Durante seu discurso, eu pensava: “o que que está rolando com o mundo???”

Tirando essa parte doida, confesso que foi massa participar do encontro e viver presencialmente coisas que eu estudava na faculdade e via na televisão. Foi um mix de sentimentos: euforia, felicidade, responsabilidade… Nesse momento tive consciência da importância do meu trabalho.
[Post na cop]

DIA 04

Esse dia foi bem especial, pois conversei com a ex-presidente do Brasil Dilma Rousseff. 

Estivemos no lançamento do Fundo para Florestas Tropicais, uma iniciativa dos Ministérios da Fazenda (Fernando Haddad), Relações Exteriores (André Lago) e Meio Ambiente (Marina Silva) que tem o objetivo de ser um instrumento global para a conservação das florestas tropicais.

Nesse dia, consegui entrar na sala por sorte, pois tinha um número limitado de participantes. O sentimento foi beeem louco, nunca vi tantos políticos e autoridades juntos, dividindo o mesmo espaço que eu. Na minha perspectiva, essa galera se coloca tão distante da população que participar desse encontro foi um choque para mim.

DIA 05

Agora você já tem uma ideia de como estava meu nível de adrenalina e cortisol!!!

Sair da Brasilândia e ir para Dubai foi uma parada que me atravessou de diversas maneiras, principalmente pelas comparações que minha mente não parava de fazer sobre as desigualdades sociais e econômicas.

Respirar fundo e fingir costume se tornou rotina rs.

No sábado de manhã eu recebi a notícia de que fui umas das 147 pessoas escolhidas para participar de um encontro com o Presidente Lula. Fiquei feliz por ocupar esse espaço, mas extremamente decepcionada pelo desenrolar das discussões.


DIA 06

Aqui começa a minha participação em mesas oficiais da ONU.

Nesse dia, falei em duas mesas: uma de manhã, a convite da Frente Nacional de Prefeitos e outra à tarde, com o pessoal da Global Alliance for Green and Gender Action (GAGGA).

É em momentos como esse que preciso de muita concentração para a cabeça não dar um treco: num dia tô andando pelas ruas da Brasilândia e no outro, estou palestrando para as maiores autoridades do Brasil e do mundo em Dubai! 

O que me ajuda a ficar focada é lembrar da minha missão: ser porta-voz de uma juventude ousada, criativa, persistente e divertida que almeja ser parte da solução dos principais desafios socioambientais. Desse modo, gosto de me imaginar com um grande megafone na mão, falando da realidade e cobrando direitos daqueles que historicamente foram silenciados e excluídos.

DIA 07

Esse foi um dos dias mais aleatórios da minha vida: encontrei o presidente da Colômbia!!!

Não vou fingir normalidade com esse momento não, viu? É muito louco estar lado a lado de uma das maiores referências da América Latina o/

DIA 08

Participei de uma discussão de alto-nível organizada pela UNESCO com educadores, ativistas e comunicadores da Nigéria, Quênia, EUA, Brasil, Egito, Tanzânia e Reino Unido com o objetivo de apoiar a formulação de um documento para a Década dos Oceanos.

O convite veio pelo Ronaldo Christofoletti, um pesquisador ma-ra-vi-lho-so que tive a impressão de conhecer de outras vidas. Sabe quando você bate papo com uma pessoa e pensa: “que ser de luz! Porque eu não o conheci antes?”

Ronaldo me convidou para ser speaker no evento “Greening Education Pavillion”, e apresentar recomendações da juventude para as Nações Unidas sobre educação climática.

DIA 09 

Quando eu era mais nova, logo no início da faculdade, pensei em ser diplomata.

No entanto, assim que descobri o ativismo, mudei de ideia. Vi que não queria apenas falar em nome do meu país, mas queria falar em nome dos meus, a galera preta e de periferia. Mas estar perto dos diplomatas ainda é algo que faz meu coração palpitar. Vejo tanto amor, entrega e zelo pela profissão.

O André, por exemplo, já virou minha inspiração. Ele é Ministro de Relações Exteriores do Brasil e dividimos uma mesa quando fui para a semana do clima em Nova York, a convite do Brazil Climate Summit. 

Foi massa demais reencontrá-lo e receber uma abraço caloroso <3

DIA 10

Nesse dia não teve negociações oficiais na COP, então aproveitei e fui bater perna com minhas amigas.

Conhecemos a OLD DUBAI, um pedacinho histórico que foi preservado na cidade. Essa parte é conhecida por ser um centrinho de compras, com restaurantes maravilhosos, lojas de aromas, roupas, tapetes, lenços e lembrancinhas para levar de recordação <3

DIA 11

Em 2022, fui convidada pelo Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU, para atuar como Jovem Conselheira da instituição.

De lá pra cá foram muitas conversas com CEOs, reuniões estratégicas com lideranças e pressão nos homens brancos de terno para implementarem as políticas climáticas, de ESG (Governança Socioambiental) e DI (Diversidade e Inclusão).

Nosso mundão não aguenta mais blá-blá-blá. Chamei a galera na chincha e mandei o papo reto (veja aqui).

DIA 12 

Lembra que eu comentei que o Ronaldo Cristofoletti me convidou para participar de um evento? O dia chegou! Foi uma mesa organizada pela UNESCO, com o intuito de trazer recomendações para a Década do Oceano para os países membros da ONU.

Eu confesso que a essa altura, eu já estava beeem cansadinha, mas isso mudou assim que o painel começou. Os painelistas eram pessoas tão apaixonadas, alto-astral e atraentes! Assim que eles começaram a falar, dava para ver o amor, a entrega e o compromisso que tinham com a causa.

Quem me dera encontrar essa mesma energia nas conversas com os tomadores de decisão no Brasil, tanta coisa teria sido diferente!

DIA 13

Para mim, esse foi o melhor babado da COP: fui convidada pelo Fundo Casa Socioambiental para desenvolver um edital de apoio para projetos de juventude!

O Régis e eu trabalhamos pesado nessa chamada, escutamos as demandas da juventude que estavam na COP e agora estamos na missão de construir uma parada maneira, assertiva e inclusiva que vá de encontro com as necessidades de grupos de juventudes negras, quilombolas e indígenas do nosso país.

Está dando trabalho, confesso. Mas estou amando fazer esse trampo e poder ser ponte para que a grana chegue na galera que já faz taaaanta coisa de forma voluntária!

Quer saber mais sobre essa iniciativa?

DIA 14

Apesar de faltar um dia para acabar a conferência, nós, da rede Vozes Negras Pelo Clima, decidimos nos dar um dia de folga. Foram tantos dias de trabalho, articulações e entregas que MERECÍAMOS essa pausa.

Fomos para o deserto e posso afirmar com segurança: FOI UM DOS PASSEIOS MAIS DIVERTIDOS DA MINHA VIDA!!!

Quer ter um gostinho do que rolou? Veja o vídeo 🙂 

DIA 15 – A (MAR) <3

No dia de ir embora, decidi ir para a praia, pois viajaria só à noite.

Coloquei meu maiô evangélico e dei um tibum no mar. Deixei a água salgada levar todas as impurezas, cansaços, dores, ranços, raivas que essa longa jornada na COP me causou.

E foi bom, sabia? Como mulher preta não estou acostumada a me permitir descansar, então foi revigorante tirar esse dia para queimar minha bundinha no sol. 

. . . 

Ufaaaa, foi bom demais escrever esse texto.

Sabe quando você tem um monte de coisa entalada na garganta, mas evita falar porque sabe que pode ser cancelada? kkkkk

Essa foi a sensação…

Querida leitora, saiba que você não apenas leu meu artigo, mas viu um pedaço do meu coração. Quero cada vez mais mostrar os bastidores e falar da vida real de uma ativista climática periférica que alcançou espaços de discussões internacionais.

Não é nada glamouroso. Tem muitas dores, atravessamentos e eco-ansiedade envolvida no processo. No entanto, acredito na força da vulnerabilidade e da comunidade. Sei que não enfrento essas paradas sozinhas e quero fortalecer uma rede de confiança para conseguir seguir firme nessa luta.

Lindeza climática, obrigada por me acompanhar nessa jornada <3

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