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Construindo Futuros: a Educação Libertária como pilar para uma sociedade mais consciente, autônoma e equitativa

Ser capaz de navegar.”

É dessa forma que o professor Rogério de Almeida, o qual tive enorme privilégio de fazer uma disciplina na Faculdade de Educação da USP, inicia sua metáfora sobre a construção da relação educativa. Em seu livro Antropolíticas da Educação, ele continua:

“Haveria maneira mais aventureira de incitar nossos alunos a lançarem-se ao mar das incertezas com uma nau construída com a quilha da curiosidade e a bússola, agulha de marear, do autoconhecimento, a conhecer o mundo e os outros?” (p. 31).

“Não falamos aqui da relação de subordinação entre timoneiro e a tripulação, pois que não existe. O que há aqui é uma rede de solidariedade constituída pela paixão ao saber. Convivência humana a construir relações humanas sem certezas absolutas, nem juízo final, nem prova final” (p.31).

Saber lidar com a incerteza através da curiosidade, do autoconhecimento, da horizontalidade (como oposto a relação de subordinação), da solidariedade, da paixão pelo saber e da boa convivência humana, são alguns dos pontos abordados pelo professor e que irão nos guiar por este texto numa reflexão sobre a construção de futuros a partir de uma educação libertária e transformadora.

Por Guilherme Leutwiler

Em 2018, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o dia 24 de janeiro como Dia Internacional da Educação, numa forma de mobilizar esforços e destacar a necessidade de uma educação inclusiva e de qualidade para todos. Um esforço global de reconhecimento da importância da educação na promoção do desenvolvimento sustentável, da paz e da equidade.

O surgimento desse dia reflete a crescente compreensão de que a educação desempenha um papel fundamental na construção de sociedades justas e no alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ela representa um chamado global para ação, reconhecendo a educação como um direito humano básico e uma ferramenta essencial para transformar vidas e comunidades.

A data proporciona uma excelente oportunidade tanto para reflexão sobre os avanços conquistados, quanto para os desafios a serem enfrentados, mas também – e principalmente – para reiterar nosso compromisso coletivo com uma educação acessível, de qualidade e capacitadora. Além de reconhecer a educação como um veículo de mudança e empoderamento, que vai além das fronteiras tradicionais e que deve abraçar abordagens inovadoras e inclusivas, promovendo a autonomia em direção à transformação social.

Nesse contexto emerge a visão de uma educação libertária, que transcende as limitações do modelo educacional convencional. Essa abordagem não só busca construir uma sociedade mais crítica, autônoma e consciente, mas também se alinha perfeitamente com a essência da data comemorativa e do texto trazido, uma vez que coloca a autonomia dos sujeitos no centro do processo educacional, e permite que os alunos tenham mais consciência sobre seu próprio aprendizado, visando desenvolver indivíduos autônomos, capazes de pensar criticamente e de contribuir de maneira significativa para a sociedade.

Ao contrário de modelos competitivos, cristalizados na lógica capitalista e individualista da mercantilização da educação, a educação libertária e libertadora busca a promoção da coletividade e da solidariedade na formação dos seres, colocando ênfase na cooperação, na construção de comunidades autossustentáveis e em aprendizados horizontais, onde cada membro contribui para o crescimento do grupo, formando cidadãos que valorizam a interconexão e trabalham em prol do bem comum.

O incentivo à curiosidade natural dos alunos é outro ponto essencial, além do reconhecimento da importância das experiências práticas, incorporando no ensino a observação da natureza, dos fenômenos físicos e humanos, tornando o aprendizado mais envolvente e relevante.

No âmbito social, a educação libertária se opõe a todas as formas de discriminação e repressão, promovendo a igualdade e a inclusão ao criar ambientes educacionais que valorizam a diversidade e respeitam as diferenças individuais. Também atua no desenvolvimento de relações horizontalizadas e participativas, desafiando as estruturas autoritárias que moldam boa parte do ensino tradicional. E, ao cultivar relações mais igualitárias entre alunos e educadores, cria espaços onde o conhecimento é construído coletivamente, incentivando uma participação ativa e uma compreensão mais profunda e complexa do mundo.

Muito além do desenvolvimento apenas acadêmico, a educação libertária visa preparar os alunos para uma ação social efetiva, crítica e cívica. Busca formar cidadãos capacitados e motivados a agir para criar mudanças positivas e transformadoras nos mais diversos espaços sociais.

O desenvolvimento integral do ser humano é também um dos principais pilares de uma educação libertária, que inclui aspectos morais, sociais e físicos, além de abrir espaço para múltiplas realidades e percepções de mundo, compreendendo suas instabilidades e imprevisibilidades, formando seres capazes de ultrapassar as barreiras das certezas absolutas impostas pelo pensamento ocidental mecanicista.

Essa forma de educação vai além de uma simples alternativa ao modelo educacional convencional, mas trata-se de uma forma de conceber as relações humanas a partir de uma lógica coletiva, inclusiva e auto-organizada, que se preocupa com uma formação (nos mais diversos níveis) complexa e transdisciplinar.

Ao abraçarmos uma abordagem educacional libertária, estamos, na verdade, investindo na construção de uma sociedade mais justa, crítica e aberta, que destaca a importância de empoderar os indivíduos para que possam desempenhar papéis ativos na criação de um futuro mais promissor para todos.

No entanto, para alcançar plenamente essa visão da educação libertária, é necessário destacar que a transformação social almejada só será plenamente realizada quando a educação for vista concretamente como um direito público universal, não como uma simples mercadoria e produtora de mão de obra, em que o acesso à educação muitas vezes é tratado como um produto que pode ser comprado e vendido, marginalizando e criando barreiras que limitam o acesso e perpetuam desigualdades, minando o potencial transformador da educação.

É crucial lembrar que a educação não deve ser um privilégio de poucos, mas sim um bem comum acessível a todos. Governos, instituições educacionais e a sociedade como um todo têm a responsabilidade de garantir que cada indivíduo tenha a oportunidade de desenvolver seu potencial máximo, independentemente de sua origem e salvaguardando aspectos culturais.

Resgatando a frase do professor Rogério no começo do texto, e tendo como base as perspectivas de uma educação libertária, podemos chegar a algumas conclusões: a educação se fortalece quando os laços são criados pela paixão ao saber, a curiosidade e o autoconhecimento devem ser nossos guias, e as relações não devem refletir subordinação, nem juízo, mas solidariedade, pois é só da convivência e relação humana que conseguiremos conhecer nós, o mundo e os outros.

Por fim, à medida que contemplamos os avanços e desafios, é inegável que a educação libertária pode emergir como uma luz-guia, e a reflexão do Dia Internacional da Educação, fundamentada no reconhecimento global da vitalidade da educação, deve reiterar o compromisso coletivo com uma educação acessível, inclusiva e transformadora.

Alguns pensadores que podem nos ajudar a entender mais sobre uma educação libertária e sua aplicação na sociedade são:

Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, pensador da pedagogia crítica, que enfatiza a conscientização, a participação ativa dos alunos e a superação das desigualdades sociais por meio da educação, entre outros aspectos essenciais da educação, tal como a alfabetização e a teorização dos afetos na educação;

Francisco Ferrer Guardia, anarquista espanhol e fundador da Escola Moderna, buscava a emancipação individual e coletiva através de uma educação racional e libertária, rejeitando autoritarismos e promovendo a autonomia;

Emma Goldman, anarquista e ativista lituana, defendeu a educação como uma ferramenta para a emancipação individual e social e como principal meio para criar indivíduos críticos e conscientes;

Sebastian Faure, ativista libertário, criador da escola “A Colmeia” e propagador de uma educação laica, racional e antiautoritária, promovendo a autonomia dos alunos e a rejeição de métodos coercivos;

bell hooks, autora, feminista e teórica cultural afro-americana que discute questões interseccionais, no campo da educação destaca a importância de uma abordagem libertária que promova a equidade, a justiça social e a autonomia, além de explorar ideias sobre pedagogia crítica, também encoraja educadores a desafiarem estruturas opressivas e a criarem ambientes de aprendizagem mútua e coletiva;

Ivan Illich, pensador austríaco e crítico da institucionalização da educação nas sociedades contemporâneas, e que escreve em favor de uma aprendizagem mais autodirigida e descentralizada. 

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