Conheça Murilo Araújo, criador do Canal Muro Pequeno

O número de jovens que desejam ser criadores de conteúdo não para de crescer! A empresa First Choice realizou, em 2017, uma pesquisa com 1000 crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos no Reino Unido e constatou que cerca de 75% dos entrevistados sonham em seguir a carreira de youtuber.no Brasil, um estudo divulgado pela revista Veja Rio mostrou que 80% da população entre 9 e 17 anos já utiliza a plataforma para acompanhar algum criador digital ou canal.

Muitas vezes assistimos youtubers famosos (e cada vez mais jovens) mas não fazemos ideia de como eles chegaram até lá. Confira a entrevista que a nossa comunicadora Amanda Costa fez com Murilo Araújo, criador do Canal Muro Pequeno. Murilo se apresenta no canal e já dá o tom do conteúdo que pode ser visto em seus vídeos:

Eu sou o Murilo, uma bicha negra cristã e militante, fazendo uns vídeos aqui pra falar de sonhos, desafios e aleatoriedades, problematizando a vida, espalhando amor e viadagens por aí.

Arte do canal Muro Pequeno / Reprodução YouTube

Amanda Costa (AC): Estamos na geração do audiovisual e muitos jovens têm o sonho de se tornarem youtubers. Como foi que você começou?

Murilo Araújo (MA): Eu sempre fui uma bixa palestrinha, sou ligado à comunicação desde muito cedo. Minha mãe trabalhava no setor administrativo de uma rádio, mas como eu não podia ficar dentro do escritório, eu ficava no estúdio. O único combinado era que eu não poderia fazer muito barulho e nem atrapalhar ninguém.

Com 12 anos eu tive um programa de rádio comunitário e me encantei por essa arte! Decidi fazer faculdade de jornalismo, mas depois de um tempo, me frustrei com o campo… Terminei a graduação com 21 anos e entrei no Mestrado em Letras, fundamentando a minha pesquisa sobre católicos e a comunidade LGBT logo em seguida. Assim que finalizei o mestrado, iniciei o doutorado: eu tinha apenas 23 anos!

Durante o segundo ano do doutorado, iniciei meu canal no YouTube, lá em 2015. Foi uma época que estava muito efervescente, com vários temas rolando. Eu escrevia para um site chamado VESTIÁRIO, tinha uma coluna falando sobre cultura política LGBT e lançava debates falando sobre cura gay, HIV, etc.

Estava rolando vários debates interessantes, mas de repente, o VESTIÁRIO fechou. Como eu estava no doutorado, optei por focar na pesquisa, mas nessa época estava rolando o auge das discussões sobre lugar de fala, apropriação cultural, colorismo, interseccionalidades e os recortes dentro dos grupos vulneráveis.

Eu estava engajado nas discussões, participava de muitas tretas e percebi um boom de youtubers pretos surgindo (como Gabi Oliveira e Nataly Nery). Desse modo, decidi experimentar a linguagem do vídeo para compartilhar as minhas ideias, pois estava cansado de escrever textão e queria economizar as minhas energias com as tretas que eu participava hehehe.

Brincadeirinha!!! A questão era que eu estava no doutorado, tinha muito conhecimento teórico e queria trazer as coisas da academia para perto do povo.

Foi assim que o Muro Pequeno surgiu: o canal traz um pouco do meu nome e eu também quero diminuir os muros que separam as pessoas. A missão de derrubar os muros não era minha, mas eu queria ajudar a diminuí-los! Eu estava disposto a criar diálogos para estabelecer uma relação de pular o muro um do outro e se visitar, trocando ideias sobre a questão racial, LGBTQIA+ e a questão religiosa.

Foi tudo muito rápido: em um mês eu já tinha mil inscritos, em dois eu tinha 8 mil e em três meses tinha 25k. Não fui eu que descobriu o YouTube, foi ele quem me descobriu.

Às vezes a minha mãe brinca:

fez 15 anos de pesquisa para virar youtuber, né?

E eu respondo que simmmm! Pois tenho autonomia para falar as coisas que quero, do jeito que quero e posso defender minhas posições e impactar a vida de milhares de pessoas que estão fazendo discussões importantíssimas!

AC: A internet tem seu bônus mas também tem seu ônus, pois demanda uma grande quantidade de tempo, energia e até mesmo, recursos financeiros, com investimentos em equipamentos para a produção audiovisual. Murilo, conta para os leitores da AJN as estratégias que você utiliza no autocuidado?

MA: Eu fui uma pessoa muito sortuda, pois quando comecei na internet eu já fazia terapia (risos). Se eu não tivesse fazendo terapia antes, com certeza iria começar logo após entrar no YouTube.

Quando meu primeiro vídeo viralizou, escutei de alguns seguidores:

Finalmente uma bixa preta para nos representar aqui no YouTube!

Na minha época, não havia muitas pessoas conectando a questão de LGBT com a questão racial e eu estava começando a entender esse universo.

Foi nesse momento que cheguei na terapia em pânico, pois sentia que as pessoas estavam colocando nas minhas mãos a responsabilidade de representar as bixas pretas na internet.

Mas aí pensei, calma está tudo ok. Na verdade, meus seguidores me valorizam e se veem representados através de mim, isso é uma coisa boa! 

O ano de 2018 foi muito difícil para mim, em diversas dimensões. Foi o ano que fui desligado do doutorado, estava com a saúde física debilitada, anunciei no meu canal que iria fazer uma pausa de 1 mês que durou 4 meses e até hoje nunca voltei com a mesma frequência de produção. Já 2019 foi o ano que passei tentando me recuperar. Quando eu estava um pouquinho melhor, veio a pandemia em 2020 e agora estamos aqui, em 2021 aprendendo a lidar com esse cenário.

Murilo em capa de vídeo do canal Muro Pequeno / Reprodução Youtube

Esses últimos tempos estão sendo de reestruturação de saúde mental e física. O próprio momento político que estamos vivendo no Brasil colocou um holofote e uma pressão muito grande nos influenciadores: temos que nos posicionar, temos que participar das tretas…

Será mesmo? Eu desenvolvi gastrite, síndrome do intestino irritado, refluxo, rouquidão, dores musculares provocados por tensão. Agora tenho feito um trabalho importante para direcionar minhas energias, pois entendo que elas são limitadas e que eu não posso extrapolar!

AC: E para finalizar essa conversa maravilhosa, quais dicas você daria para jovens que desejam se tornar youtubers e bombar nas redes sociais?

MA: Poxa, mas já estamos acabando? Eu poderia passar o dia todo conversando contigo (risos)!

Vamos lá:

  • Produza o conteúdo que você gostaria de consumir. Isso é sobre a autenticidade que vai fazer as pessoas se vincularem ao que você está fazendo.
  • Entenda que isso é um trabalho, então leve a sério como um trabalho!
  • Se profissionalize, estude, faça planejamento, desenvolva projetos e não se compare com quem está a mais tempo.
  • Faça oque você acredita mas entenda que isso dará bastante trabalho.
  • Se divirta durante o processo 🙂

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