Por uma agenda de Juventude e Sustentabilidade

Compartilhe:

Por Vânia Correia

Os jovens somam 1,8 bilhão de pessoas no mundo. Eles representam um dos grupos mais afetados pelo desemprego, violência, exclusão social e destruição ambiental, gerados pelo atual modelo de desenvolvimento. É a juventude, no entanto, um dos segmentos mais sensíveis às causas ambientais. Isso fica visível nas diferentes formas de organização e manifestação sobre o tema, liderados por jovens.

Considerar o que a juventude tem a dizer, criar canais de participação e ampliar a incidência política deste público é uma estratégia fundamental na construção de uma agenda de Desenvolvimento Sustentável. Este foi o desafio debatido na mesa de abertura do segundo dia brasileiro da Youth Blast – Conferência das Nações Unidas para a Juventude, dia 8, no Centro de Convenções SulAmerica, no Rio de Janeiro. O evento é preparatório para a Rio+20 que acontece na próxima semana, também no Rio de Janeiro. Daqui sairá um documento com as proposições das juventudes para a etapa oficial da conferência.

Facilitado pelo voluntário Luciano Frontelle, o debate contou com as presenças de Pedro Piccolo, da Alternativa Terra Azul; de Maria das Neves, da União Nacional dos Estudantes; de Kitanji Loabá, da Mona Bantu – povos e comunidades tradicionais; de João Vidal, da União Geral dos Trabalhadores – UGT e de Severine Macedo, secretária nacional de Juventude.

Severine Macedo, que iniciou sua fala defendendo o Estado forte, com recursos e eficiência de gestão, destacou a importância da pressão popular para a conquista de direitos. Citou a reforma política, tema polêmico atravessado por diversos interesses, fundamental para imprimir maior liberdade e transparência nos processos políticos do país.

Para ela o debate sobre desenvolvimento sustentável não deve estar desconectado da esfera da participação política. “Temos que fortalecer todas as formas de participação”, disse. Falou da importância da integração entre os movimentos tradicionais com novas formas de mobilização social que vêm sendo adotada pelas juventudes. Além disso, segundo Severine, a governança global é um tema essencial para a juventude. A secretária lembrou que a ONU está discutindo a criação de um escritório de juventude, para tratar o tema de forma mais organizada. “No Brasil defendemos que não basta termos alguém pra representar a juventude. É preciso criar um fórum permanente de jovens do mundo todo, que possa discutir e formular sobre o tema”, concluiu.

Trabalho decente e educação de qualidade

Dos 200 milhões de desempregados no mundo, 80 milhões são jovens. De 2008 para cá, após a crise mundial, mais de 30 mil postos de trabalho foram extintos. Além disso, dois de cada cinco trabalhadores, ocupam postos de trabalho precários. Estes foram alguns dos dados trazidos por João Vidal, para o qual uma agenda de juventude e desenvolvimento sustentável deve, obrigatoriamente, compreender o tema do trabalho decente. “O trabalho é o assunto que mais interessa e preocupa aos jovens brasileiros”, disse. “É um dos mais importantes direitos de cidadania, fundamental para o alcance da emancipação, independência e autoestima da juventude”, complementa.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalho decente está alicerçado em três pilares: respeito às normas; emprego de qualidade e extensão da proteção social. Trata-se do trabalho produtivo, remunerado de forma justa, executado em condições de liberdade e garantia de direitos. O governo brasileiro lançou, em dezembro de 2010, a Agenda Nacional de Trabalho Decente para a Juventude, que traz diretrizes, metas e orientações para a união de esforços na promoção do trabalho decente. “A agenda está posta, agora é importante o governo implementá-la”, conclui Vidal.

Maria das Neves, além de abordar a importância da garantia do direito à educação de qualidade no âmbito do desenvolvimento sustentável, falou sobre a defesa da Amazônia que, na visão dela, deve ser considerada patrimônio brasileiro e ser defendida de interesses internacionais. Destacou avanços do Brasil na preservação ambiental e cobrou também a responsabilidade dos chefes de estado com as resoluções da conferência. “É importante que os governos saiam da Rio+20 com compromisso de efetivar as resoluções aprovadas”.

Retrocesso na política ambiental

Já Pedro Piccolo fez uma crítica incisiva à atual política ambiental brasileira. O Brasil, que vem se desenvolvendo a olhos vistos, econômica e socialmente, no que diz respeito à renda e acesso a serviços públicos, ainda patina em relação às questões ambientais. Para ele, os avanços observados na gestão Lula, não foram acompanhados pela atual gestão. “A gestão da Dilma tem uma concepção atrasada sobre o tema. O mais visível hoje é o código florestal que, teve alguns vetos, mas foram insuficientes”, observou.

Pedro citou exemplos de leis aprovadas pelo Congresso Brasileiro que alimentam o atual modelo de desenvolvimento, beneficiam o agronegócio, desrespeita as populações indígenas e reduzem o poder fiscalizador do Estado. Como por exemplo, a redução do IPI na compra de carros zero, medida do governo para aquecer a economia, em vez de melhorar e ampliar o sistema público de transporte.

Kitanji Loabá, da  Mona Bantuo – povos e comunidades tradicionais, numa intervenção poética e inspiradora falou sobre importância da reparação da escravidão, garantindo à população negra o direito à terra e à preservação cultural. E convocou a juventude a repensar o conceito de desenvolvimento. “Nós jovens devemos nos voltar não para uma economia verde, mas para a sobrevivência da terra. Não para nos desenvolver, mas para crescer naturalmente como cresce uma criança, árvore ou uma flor”, concluiu.

Para Raquel Andrade, 17, de Niterói o debate valeu a pena. “Foi um dos mais interessantes por vários pontos de vista. O jovem tem mesmo que ir pra rua e cobrar as mudanças que queremos”.

Um novo modelo, uma nova vida

A Rio+20 cria um ambiente oportuno para o aprofundamento das proposições a respeito de outro modelo de desenvolvimento. Realizada num momento das crises econômica e financeira que afeta, sobretudo, países europeus, a conferência será o palco de disputas entre, pelo menos, duas visões de futuro para o planeta. Uma baseada na concepção de economia verde, que de acordo com os movimentos sociais, seria uma falsa solução, uma vez que apenas revestiria o atual modelo de uma cara mais ambiental, mas no fundo continuaria sendo o velho conhecido capitalismo selvagem, baseado na acumulação privada de riquezas, nas relações hierarquizadas e de dominações, no consumo desenfreado e na exploração insustentável dos recursos naturais.

Na contramão desta proposta, os movimentos sociais, que se reunirão na Cúpula dos Povos, devem denunciar as injustiças e deformidades do sistema, partilhar e propor alternativas que caminhem na direção de um desenvolvimento sustentável, baseado na autonomia e solidariedade entre os povos e em numa relação de respeito e equilíbrio entre humanidade e natureza. Enfrentar as crises, com medidas justas e de não supressão de direitos é tão importante quanto encarar o desafio da preservação ambiental, mudanças climáticas e superação da pobreza. A juventude se soma neste debate como geração fundamental para reivindicar e reinventar outra forma de estar no mundo, mais solidária, justa e sustentável.

 

 

Compartilhe:

Resposta de 0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress