De 7 a 11 de abril, Brasília foi mais uma vez ocupada por cantos, cores, danças e vozes potentes dos povos indígenas de todo o Brasil. A 21ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), maior mobilização indígena do país, reuniu mais de 8 mil participantes de mais de 150 povos — entre eles, os Huni Kuĩ, Ashaninka, Shanenawa, Nukini, Nawa, Shawãdawa e Yawanawa, vindos do Acre.
Com o tema “APIB Somos Todos Nós: Em defesa da Constituição e da vida”, o ATL deste ano teve um significado especial: celebrou os 20 anos da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que desde 2005 tem sido uma das principais vozes na defesa dos direitos originários.
Durante os cinco dias de programação, o Eixo Cultural Ibero-Americano – Funarte se transformou em território de resistência e construção coletiva. Plenárias, oficinas, apresentações culturais e grandes marchas pela Esplanada dos Ministérios marcaram o ritmo da mobilização.
O ATL contou com importantes espaços de debate, como as plenárias políticas, que reuniram autoridades e lideranças indígenas para discutir os principais desafios enfrentados pelos povos originários. Estiveram presentes a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva; a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara; a presidenta da Funai, Joenia Wapichana; e a deputada federal Célia Xakriabá.
Durante a última marcha do ATL, intitulada “A resposta somos nós”, a deputada foi vítima de um episódio de violência e repressão. Em um ato pacífico realizado em frente ao Congresso Nacional, policiais militares que faziam a contenção lançaram spray de pimenta contra os manifestantes, atingindo inclusive a parlamentar, em mais um grave exemplo de desrespeito às manifestações democráticas e à luta dos povos indígenas por seus direitos.
A segunda marcha do acampamento, justamente essa, foi um dos momentos mais fortes e simbólicos da semana. Cerca de 7 mil indígenas caminharam pelas ruas de Brasília, denunciando retrocessos, exigindo o cumprimento da Constituição e afirmando que os povos indígenas não aceitarão que seus futuros sejam negociados.
Os debates também foram intensos e necessários. Demarcação de terras, direitos constitucionais, enfrentamento ao Marco Temporal e fortalecimento das políticas públicas específicas foram pautas centrais nas discussões, sempre guiadas pela sabedoria ancestral e a luta das lideranças, anciãos, mulheres e juventudes indígenas.
A comunicadora indígena Samsara Nukini, da Rede de Comunicadores Indígenas do Acre, destacou a importância do ATL como espaço de aprendizado e fortalecimento coletivo:
“A importância do ATL para mim é muito grande. Primeiro por ser a maior mobilização do país entre os povos indígenas. Segundo, porque é ali que a gente escuta sobre todos os nossos direitos — da saúde à educação — e debate as principais pautas. Eu sou do Acre, e a gente vem enfrentando uma situação muito complicada com a proposta de estrada ligando Cruzeiro do Sul a Pucallpa. Mas essa estrada impacta também outros territórios, como o de Mâncio Lima, os Ashaninka, os Nawa. O ATL é essa grande força somada entre diferentes povos. Nem todos enfrentam os mesmos problemas, mas todos carregam a dor do preconceito. E no ATL a gente fala sobre isso também. É uma mobilização grandiosa, onde a gente soma força, compartilha lutas e aprende muito. Esse é meu segundo ATL, e cada vez me sinto mais fortalecida.”
Josias Maná Huni Kuĩ, da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Jordão e membro da Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), também integrou a delegação do Acre. Para ele, o ATL é um espaço essencial de articulação, escuta e mobilização:
“É uma grande articulação, uma grande mobilização que traz as lideranças das aldeias para Brasília. Um movimento do nosso movimento indígena, através da APIB, da COIAB e de outras organizações regionais que se somam nesse chamado. É um espaço livre onde falamos sobre nossas reivindicações, nossas necessidades nas aldeias. Cada tenda traz debates importantes — saúde, educação, produção. Nós, do Acre, levamos as experiências que estamos construindo: vigilância territorial, modelos de produção agroflorestal, segurança alimentar e manejo tradicional, tudo com base na nossa cultura e no cuidado com a floresta em pé. É um espaço onde aprendemos e fortalecemos alianças com outros povos e organizações. Foram cinco dias de muito aprendizado, onde a liderança se posiciona com coragem e sabedoria. Agradeço à Comissão Pro-Indígena do Acre pelo convite e apoio. Seguimos levando adiante a luta dos nossos antigos, dos nossos pais e avôs. Representamos o nosso povo, nossa comunidade e nossa organização. Haux Haux!
Mais do que uma mobilização, o Acampamento Terra Livre é um território de afirmação. Um espaço onde os povos originários seguem fazendo história, com coragem, coletividade e esperança. Porque, como dizem os próprios participantes: “Nosso futuro não está à venda.”






















