Reindustrialização de baixo carbono pode abrir novos caminhos para a economia brasileira

Por Priscila Pacheco
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Em documento sobre as eleições 2026, Observatório do Clima apresenta propostas para recuperação da indústria e combate às mudanças climáticas

A indústria brasileira enfrenta um duplo desafio: se recuperar depois de décadas de perda de espaço na economia e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões de gases de efeito estufa associadas à atividade. Neste contexto, a transição para uma economia de baixo carbono representa uma oportunidade para enfrentar as duas questões simultaneamente.

Considerando todos os setores, a indústria responde por 10% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa, mostram dados de 2024 do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg). O cálculo inclui processos industriais, queima de combustíveis fósseis e autogeração de eletricidade. Dentro do setor industrial, a metalurgia é o setor que mais emite.

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Para Rosana Santos, diretora-executiva do Instituto E+, o aumento da atividade industrial brasileira depende da ampliação dos mercados. O problema, segundo ela, é que o mercado doméstico não é suficiente, enquanto a concorrência internacional é muito mais acirrada.

Santos ressalta, no entanto, que a competitividade brasileira no exterior poderia vir justamente de uma vantagem comparativa do país: a capacidade de produzir com menores emissões.

“O Brasil talvez tenha o que ninguém mais tem, que são todos os itens necessários para produzir com menores emissões, produzir coisas, não importa o quê, com menores emissões por tonelada de produto”, diz Santos.

A especialista ressalta, porém, que esse processo de transformação não será barato nem rápido. “Se estamos falando em investimento em reindustrialização do Brasil, esse investimento teria que estar forçosamente conectado ao investimento de um parque industrial que produz com menores emissões para acessarmos o mercado internacional”, diz. 

Essa lógica está no centro das propostas do Observatório do Clima para as eleições de 2026. No documento, a rede defende que as novas tecnologias de baixo carbono sejam um eixo central da reindustrialização, com ganhos de eficiência energética, eletrificação de processos e substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis, biomassa e hidrogênio de baixo carbono. 

Felipe Barcellos, pesquisador do IEMA e integrante do Seeg, explica que, embora a transição da indústria não seja simples, já existem caminhos para reduzir as emissões. A indústria do aço, por exemplo, pode avançar no uso de hidrogênio e carvão vegetal. O uso do carvão vegetal, no entanto, precisa ser acompanhado de salvaguardas socioambientais rigorosas, já que sua produção, baseada principalmente no cultivo de eucalipto, pode gerar impactos sociais e ambientais relevantes.

O uso de biometano é outra alternativa, especialmente para substituir o gás fóssil em processos nos quais a eletrificação é menos eficiente ou exige mudanças tecnológicas mais complexas. “O biometano é uma boa estratégia para usar na indústria, que é uma área onde gás tem um papel que é difícil de ser substituído totalmente por eletricidade, pelo calor, pelo tempo de aquecimento. Eletricidade tem outro tempo”, diz Barcellos.

O pesquisador também explica que o biometano pode aproveitar boa parte da infraestrutura já existente para o gás fóssil. “Para substituir o gás por eletricidade eu tenho que mudar todo o processo. É uma coisa que demora mais e tem um retrofit maior. Então, o biometano, que nós temos um grande potencial de produção, é uma oportunidade para a indústria”, comenta.

Para transformar essas alternativas em uma estratégia efetiva de reindustrialização, no entanto, é preciso combinar inovação tecnológica com políticas públicas capazes de reduzir custos, direcionar investimentos e dar segurança para as empresas sem prejudicar os direitos humanos e sociais. O caderno do Observatório do Clima reúne propostas nesse sentido:

  • aperfeiçoar e implementar o plano Nova Indústria Brasil (NIB);
  • avançar no aperfeiçoamento, implementação e expansão da Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB);
  • melhorar a eficiência energética;
  • reduzir o uso de gás e de outros combustíveis fósseis, com metas de redução e cronograma definidos, substituindo-os por fontes como hidrogênio verde, biomassa e eletricidade;
  • implementar um sistema nacional de rastreabilidade de origem mineral;
  • erradicar imediatamente o uso do mercúrio nas atividades de mineração;

Confira as propostas completas aqui.

Esta reportagem integra o especial “OC nas eleições”, que apresenta propostas para ajudar candidatos e partidos na formulação de programas voltados à agenda ambiental e climática, além de auxiliar o eleitor a verificar como seus candidatos atuam nessas áreas.

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Imagem destacada: Felipe Silva/Pexels

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