No noroeste mineiro, frutas produzidas por quase 160 famílias ligadas à Copabase (Cooperativa da Agricultura Familiar Sustentável com Base na Economia Solidária) passam por uma agroindústria própria e viram polpas congeladas que chegam a estudantes de escolas públicas, prefeituras e outras instituições no estado. A experiência vivenciada por lá aponta os caminhos para uma produção e consumo mais sustentáveis, parte importante das ações de enfrentamento da crise climática.
Fortalecer as práticas benéficas ao meio ambiente e ao clima nos sistemas alimentares ainda é um grande desafio para o Brasil. A mudança passa não só por fortalecer a agricultura familiar e a agroecologia, como no caso da Copabase, mas também por reforçar a agropecuária de baixo carbono, bloquear financiamentos a propriedades com desmate ilegal e violação dos direitos humanos e garantir uma alimentação mais diversificada aos brasileiros.

Muitos são os entraves, incluindo o financiamento. A disparidade de incentivos recebidos pelo agronegócio tradicional e pelas práticas mais sustentáveis é grande: dos R$ 600 bilhões do Plano Safra 2025/2026, só 1,6% foi destinado à agricultura de baixo carbono, por exemplo. O desenho geral do programa continua priorizando maciçamente a agricultura empresarial, baseada em monoculturas para exportação, no uso intensivo de água e agrotóxicos, com impacto direto no clima. Só em 2024, o agro convencional respondeu por um terço das emissões brasileiras, atrás apenas do desmatamento e de outras mudanças no uso da terra.
Para começar a mudar esse cenário, a rede do Observatório do Clima propõe uma série de medidas no caderno “Sistemas Alimentares e Agropecuária de Baixo Carbono”, parte do documento “Propostas para a Política Ambiental Brasileira”, elaborado para as eleições deste ano.
As medidas listadas incluem ações voltadas para as áreas ocupadas pela agropecuária, como recuperar 22,5 milhões de hectares de solos degradados, expandir em mais 18 milhões de hectares de sistemas de Integração-Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), implantar um milhão de hectares de Sistemas Agroflorestais (SAF) e expandir 5 milhões de hectares as Florestas Plantadas.
Também há propostas para ampliar práticas já conhecidas que ajudam a reduzir as emissões no campo, como mais 12,5 milhões de hectares em plantio direto e outros 19 milhões de hectares com técnicas que reduzem a necessidade de fertilizantes nitrogenados. O objetivo é que o setor reduza, até 2035, suas emissões líquidas para que o Brasil cumpra seus compromissos climáticos internacionais.
De fato, mudanças no campo são essenciais para este processo. No entanto, elas não bastam, diz Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da ong Mercy For Animals. “Elas não serão suficientes se a gente também não abordar as emissões do consumo”, avaliou.
Do campo ao prato
Segundo Garbini, as políticas climáticas precisam olhar também para o que acontece depois das porteiras das fazendas, na rota da comida até o prato dos brasileiros. Na avaliação da especialista, debates e ações do país ainda se concentram em medidas como melhorar o manejo de pastagens ou reduzir o metano emitido pelo gado, quando mudanças mais amplas são necessárias.
“Por mais que a gente adote medidas que reduzam as emissões da produção, elas não serão suficientes sem abordar as emissões associadas ao consumo”, avaliou. “É preciso estimular dietas mais diversificadas, com maior presença de vegetais e menor dependência de proteína animal, combinadas ao fortalecimento da agricultura familiar, da agroecologia, da sociobiodiversidade e dos sistemas agroflorestais”.
O caderno do OC também propõe romper a chamada “tríplice monotonia” na produção no campo brasileiro, composta por pouca diversidade nas lavouras, cadeias produtivas concentradas, dietas pouco variadas e, por vezes, com muitos ultraprocessados.

Além disso, na avaliação da especialista da Mercy for Animals, o consumo ainda pesa pouco na política climática nacional, mesmo que compras públicas diversifiquem a alimentação, fortaleçam produtores locais e reduzam emissões. “Tanto a NDC, o compromisso do país no Acordo de Paris, quanto o Plano Clima, tratam o tema de forma tímida”, afirmou Garbini.
A experiência da Copabase no noroeste de Minas Gerais mostra que essas necessárias mudanças no caminho do campo ao prato são possíveis.
As polpas produzidas refletem a diversidade e a sazonalidade das frutas, fazem os alimentos durarem mais e agregam valor ao que sai das propriedades. Em 2017, um contrato com a prefeitura de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, levou polpas da cooperativa a 198 pontos, incluindo escolas e creches. A produção saltou de 2 toneladas anuais para 2 toneladas por mês. As vendas da entidade ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) começaram em 2009 e somam até 80% de seu faturamento.
“A cooperativa é um conjunto de esforços que mostra que a agricultura familiar funciona, dá certo”, resumiu Dionete Figueiredo, de uma família com tradição na agricultura familiar regional e gerente da Copabase, uma das entidades ligadas à Central do Cerrado, que promove o uso sustentável do Cerrado e da Caatinga.
Segundo ela, a intenção é ampliar as vendas públicas e para outros mercados e reduzir o número de intermediários entre quem produz e quem compra, mantendo mais dinheiro no campo. “Assim, você ganha mais, e isso se reflete em mais renda para os agricultores. Não tem obstáculos quando você tem planejamento, gestão e bons produtos”, avaliou Figueiredo.
Na Copabase, Figueiredo vê um exemplo de como melhores políticas públicas podem pôr em prática parte dessa agenda. “Eu não vou mudar o mundo, nem a nossa cooperativa, nem nossos produtores. Mas, se a política pública existe e a gente pode aproveitar, é uma obrigação fazer a nossa parte”, disse. “As crianças agradecem e o mundo fica mais saudável e sustentável”.
| Esta reportagem integra o especial “OC nas eleições”, que apresenta propostas para ajudar candidatos e partidos na formulação de programas voltados à agenda ambiental e climática, além de auxiliar o eleitor a verificar como seus candidatos atuam nessas áreas. |
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Imagem destacada: Horta Urbana em São Paulo, setembro de 2022. Crédito: Fellipe Abreu/Governo Federal