Em Encantado, município localizado no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, foi desenvolvida uma ferramenta de inteligência artificial para acompanhar, em tempo real, o nível dos rios e barragens e projetar a cota de inundação durante os períodos de chuva. As informações são enviadas à população por meio de grupos de WhatsApp da Defesa Civil, indicando quando é necessário deixar as casas.
“Essa IA nos mostra, por exemplo, que, se o rio continuar subindo nesse ritmo, às 7h da manhã vai atingir determinada cota de inundação. Então, comunicamos a população por meio dos grupos de WhatsApp de cada comunidade. Não adianta criar um outro aplicativo que as pessoas não vão baixar. Tem que usar o que elas já têm”, afirma Stéfanie Casagrande, secretária municipal de Inovação e Educação de Encantado.
“Durante o evento climático de julho, nos dias 21 e 22, já conseguimos usar a ferramenta, e ela foi muito importante”, acrescenta. Mais de 140 municípios do Rio Grande do Sul registraram danos causados pelos temporais mês passado.
Há anos, Encantado é considerada uma área de risco e convive com enchentes. Casagrande conta que, no passado, quando chovia, o rio subia em um ritmo que permitia à população proteger seus pertences e às escolas se organizarem. Em setembro de 2023, porém, a situação foi diferente: os temporais fizeram o rio Taquari subir muito rapidamente.
Na época, a secretária ouviu que uma enchente daquela magnitude só voltaria a acontecer décadas depois. No entanto, em maio de 2024, quase todo o Rio Grande do Sul ficou debaixo d’água. Encantado registrou deslizamentos e mais mortes.
“Então, a gente viu que não é mais daqui a 40 anos que esses eventos climáticos vão acontecer”, relata ela.

Como resposta às tragédias de 2023 e 2024, o município redesenhou um projeto educacional chamado Encanta Hub, que incluiu um centro de resiliência climática. O projeto foi lançado em novembro de 2025. Os estudantes da rede municipal participam de atividades no contraturno escolar, e uma das trilhas de aprendizagem disponíveis é a chamada “Cidade Resiliente e Sustentável”.
No mesmo prédio funciona o centro de resiliência onde a ferramenta de inteligência artificial foi desenvolvida. Durante eventos extremos, o espaço também serve como base do gabinete de crise e central de comando. Segundo Casagrande, o prédio foi adaptado para continuar operando mesmo em situações de emergência, com internet via satélite, gerador de energia e caixas-d’água.
“Isso é para que a gente não fique sem comunicação, sem água e sem luz, como aconteceu em 2023 e 2024. Estruturamos esse espaço para servir de apoio durante eventos climáticos extremos”, explica.
O próximo passo é conseguir recursos para instalar uma cozinha industrial. Além de servir para aulas de culinária, o espaço poderá produzir marmitas para pessoas abrigadas durante enchentes. O município também começou a instalar placas que indicam rotas de fuga, áreas de alto risco de inundação e pontos de encontro.
Para Thaynah Gutierrez, assessora de clima e racismo ambiental em Geledés – Instituto da Mulher Negra, as ações de Encantado são um bom exemplo de adaptação climática e gestão de risco de desastres, dois temas que se sobrepõem em um cenário de agravamento da crise climática.
Apesar do exemplo do município do Rio Grande do Sul, a adaptação climática ainda é um desafio no Brasil.
“Estamos falando de um país continental, com 5,5 mil municípios, e que, para conseguir coordenar ações de adaptação, precisa de mais do que um plano robusto do Governo Federal. Precisa de uma interlocução interfederativa muito robusta”, afirma Gutierrez.
Ela explica que cada território apresenta desafios específicos. Por isso, não faz sentido que uma Secretaria de Educação estadual elabore um único plano de contingência para todas as escolas. Enquanto uma unidade pode estar sujeita a deslizamentos, outra pode enfrentar apenas alagamentos. As respostas são diferentes: uma poderá exigir reconstrução; outra, um plano de evacuação.
“Então, é preciso conectar o plano de contingência de cada município ao plano da Secretaria de Educação do estado, aos planos da Saúde, da Assistência Social e do Ministério da Fazenda”, diz, usando a área da educação como exemplo.
Outro ponto de atenção é facilitar o acesso dos municípios aos recursos financeiros. Em março, um levantamento do Observatório do Clima mostrou que 28,6% dos municípios brasileiros estavam em situação de vulnerabilidade climática e fiscal. Isso significa que precisam de recursos para se adaptar aos eventos climáticos extremos, mas não têm condições de contratar empréstimos.
Segundo Gutierrez, é necessário equilibrar a oferta de recursos reembolsáveis (empréstimos) e não reembolsáveis (recursos que não precisam ser devolvidos, desde que cumpridas as finalidades do projeto e as regras estabelecidas), para evitar o aprofundamento das desigualdades regionais.
Diante desses desafios, o Observatório do Clima reuniu em um caderno de propostas uma série de medidas voltadas à adaptação climática e à gestão de riscos de desastres. O documento apresenta quase 20 recomendações. Entre elas estão o estabelecimento de metas, indicadores e avaliações de risco climático; a ampliação dos sistemas de monitoramento e alerta; o fortalecimento do planejamento territorial resiliente; o incentivo a soluções baseadas na natureza; a proteção de populações vulneráveis e ecossistemas; e o enfrentamento do racismo ambiental, com foco na promoção da justiça climática e na construção de cidades mais resilientes e justas.
Confira todas as propostas aqui.
| Esta reportagem integra o especial “OC nas eleições”, que apresenta propostas para ajudar candidatos e partidos na formulação de programas voltados à agenda ambiental e climática, além de auxiliar o eleitor a verificar como seus candidatos atuam nessas áreas. |
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Imagem destacada: Lucas Brunetto/Prefeitura de Lajeado/RS