A hora da Amazônia: a COP30 em Belém se aproxima da marca climática

Por Paulo Lima e Roberto Barbiero*
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Mesmo com o cumprimento integral dos compromissos anunciados, as projeções indicam um aumento médio de temperatura de cerca de 2,3°C até o final do século, bem acima do limite de segurança estabelecido em Paris.

A COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, começa em 10 de novembro em Belém, no coração da Amazônia brasileira. Ela reunirá milhares de delegados, representantes governamentais, jornalistas e observadores de todo o mundo até 21 de novembro para discutir como acelerar a implementação do Acordo de Paris, exatamente dez anos após sua entrada em vigor.

Cientistas continuam a soar o alarme: muito pouco foi feito para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e fortalecer os esforços de adaptação, enquanto os impactos climáticos se multiplicam, afetando particularmente os países mais vulneráveis ​​do Sul Global.

O planeta está aquecendo a um ritmo cada vez mais acelerado. 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperaturas globais 1,5°C acima da era pré-industrial: o primeiro limite crítico estabelecido pelo Acordo de Paris foi ultrapassado. Os mares estão aquecendo e o nível do mar está subindo, com perdas recordes de gelo na Groenlândia, Antártica e nos Alpes. Eventos extremos — furacões, ondas de calor, secas e inundações — estão se tornando a nova normalidade. Em 2024, a Itália foi o país europeu mais afetado por desastres climáticos. Apesar das evidências, a resposta da comunidade internacional continua lenta, enquanto a pressão da sociedade civil para que a COP30 marque uma virada concreta está aumentando.

NDC, o teste dos compromissos

O objetivo de Belém é finalmente tornar operacional a implementação do Acordo de Paris. É hora de renovar as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), por meio das quais cada país define suas ações de redução de emissões e adaptação.

Na véspera da COP, apenas 64 países, responsáveis ​​por 63% das emissões globais, haviam apresentado novos compromissos, dificultando uma avaliação abrangente. Entre os ausentes notáveis ​​estavam a China, a Índia e a União Europeia, esta última tendo chegado a um acordo de última hora com o objetivo de reduzir as emissões em 90% até 2040, após a redução de 55% planejada para 2030 e a neutralidade climática até 2050.

Mesmo com o cumprimento integral dos compromissos anunciados, as projeções indicam um aumento médio de temperatura de cerca de 2,3°C até o final do século, bem acima do limite de segurança estabelecido em Paris.

Financiamento climático: de Baku a Belém

Outra questão crucial é o financiamento climático, um legado da COP29 em Baku. As negociações se concentram na Nova Meta Coletiva Quantificada (NCQG), que prevê triplicar os fundos disponíveis para os países em desenvolvimento — de US$ 100 bilhões para US$ 300 bilhões anualmente — e no “Roteiro Baku-Belém”, que visa atingir US$ 1,3 trilhão até 2035.

Em Belém, os mecanismos operacionais dessa nova arquitetura financeira precisarão, portanto, ser definidos: como gerenciar os fundos, o papel dos financiadores públicos e privados e, sobretudo, como evitar que os empréstimos alimentem a espiral da dívida nos países mais frágeis.

A transição energética e a saída dos combustíveis fósseis

A maior expectativa gira em torno de uma declaração política conjunta que estabeleça um programa de trabalho sobre mitigação. O objetivo é claro: uma transição energética radical, com o abandono gradual do petróleo, gás e carvão, a expansão das energias renováveis ​​e um aumento significativo da eficiência energética. Essa meta ambiciosa, no entanto, é dificultada por países que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis.

Um contexto geopolítico incerto

A COP30 ocorre em um momento de grande instabilidade geopolítica. Conflitos em curso estão drenando recursos econômicos que poderiam ser alocados para ações climáticas. Os Estados Unidos anunciaram sua retirada do Acordo de Paris em janeiro de 2026, enquanto a União Europeia, enfraquecida por divisões internas e pela pressão de lobbies de combustíveis fósseis, luta para cumprir seus compromissos do Pacto Ecológico Europeu. Enquanto isso, as economias emergentes do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão fortalecendo sua influência, remodelando o equilíbrio global de poder.

O desafio e a esperança de Belém

Nesse contexto, Belém assume um significado simbólico e político decisivo. A presidência brasileira, liderada por André Corrêa do Lago, estabeleceu entre seus objetivos a revitalização do multilateralismo e da cooperação internacional como antídoto aos novos nacionalismos, promovendo também uma mobilização coletiva (Mutirão Global) inspirada nos valores indígenas da Amazônia.

O papel da sociedade civil será crucial, pois ela é chamada a garantir que as decisões não fiquem apenas no papel. No Brasil, ela voltará a ocupar o centro do palco com a Cúpula dos Povos, um evento paralelo e alternativo à COP, que reúne movimentos sociais, povos indígenas e organizações da sociedade civil para oferecer uma visão popular sobre o clima e a justiça social.

Belém, cidade de água e floresta, torna-se, assim, um símbolo de um duplo desafio: lembrar ao mundo que o tempo para agir está se esgotando e que a esperança em um futuro sustentável também começa aqui, onde as crises climática e ambiental se encontram todos os dias.

*Paulo Lima é jornalista e editor da Viração&Jangada

* Roberto Barbiero é climatologista da Agência Provincial de Proteção Ambiental

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