Boas práticas de inclusão e diversidade no mundo do trabalho para jovens mulheres negras

Diversidade, Equidade e Inclusão são palavras que têm ganhado destaque nos últimos anos e chama atenção para a necessidade de promover ações práticas dentro das empresas. Nesta produção, exploraremos a temática com foco em jovens mulheres negras.

Por Geovana Nogueira, especial para o MUDE com Elas

Dando continuidade à série especial sobre os temas centrais do projeto MUDE com Elas, neste artigo falaremos sobre boas práticas de inclusão e diversidade no mundo do trabalho, com foco em jovens mulheres negras e periféricas. O MUDE com Elas é uma iniciativa multiatores que articula o poder público, empresas, organizações da sociedade civil e as juventudes na realização de ações que visam superar as inúmeras barreiras impostas pelo racismo, pelas desigualdades de gênero e pela condição socioeconômica – que impedem, atrasam e atrapalham a garantia de acesso, a permanência e o desenvolvimento de jovens mulheres negras no mundo do trabalho. 

Boas práticas de Diversidade e Inclusão nas organizações: um investimento com retorno positivo garantido

Empresas que se preocupam em atrair e reter profissionais a partir de marcadores de diversidade desenvolvem suas equipes, transformam a experiência e aumentam o envolvimento dos colaboradores, além de qualificar o relacionamento com clientes ou demais atores estratégicos. Investir em boas práticas de Diversidade e Inclusão  contribui para a criação de um ambiente de trabalho saudável, produtivo, inovador e criativo, alcançando melhores resultados – o que também é vantajoso para os negócios. Para inovar, é preciso ter olhares e repertórios diversos!

Mas, além disso,  sabemos que as mulheres negras fazem parte dos grupos populacionais que mais sofrem com o acúmulo e a intersecção de violências e opressões na sociedade – principalmente no que diz respeito à garantia de acesso  aos espaços de saúde, de escolaridade, de cultura, de mobilidade, de trabalho digno e outros. Então, pensar em Diversidade e Inclusão dentro das empresas é, também, buscar justiça social e reparação histórica.  

Do ponto de vista do negócio, também é uma decisão inteligente a ser tomada. O levantamento de 2022 “Ações Afirmativas no Mundo Corporativo: Um Estudo Sobre o Impacto da Diversidade no Mercado de Trabalho”, feito pelo Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), aponta que o aumento na diversidade étnico-racial, para além dos benefícios citados anteriormente, também agrega valor às experiências individuais e coletivas dos colaboradores. Quando pensamos em um ambiente corporativo potente, sabemos que não basta só garantir a representatividade, é necessário criar condições para que a mulher negra tenha o seu espaço de fala respeitado, participe ativamente dos processos de tomada de decisão, tenha oportunidades de crescimento e estudo, traga a sua inteligência, a sua criatividade, a sua resiliência, a sua competência e todas as suas outras habilidades para jogo.

É importante agir para que as empresas adotem uma perspectiva de que a mudança precisa ir além dos resultados financeiros e de performance: mais do que gerar lucro para elas, é necessário adotar estratégias que representam um compromisso real e genuíno para a construção de uma sociedade mais justa.

A importância de políticas de Diversidade e Inclusão no fomento ao trabalho digno para jovens mulheres negras

Como vimos na matéria “Políticas de acesso a trabalho decente pela juventude negra”, há  uma enorme dificuldade de acesso ao trabalho decente por jovens mulheres negras. Grupos minorizados ocupam uma posição desfavorável quando se trata  do acesso a boas oportunidades de formação e de ingresso no mercado de trabalho, daí a importância de as empresas exercitarem as boas práticas de Diversidade e Inclusão em suas premissas de atuação – já  que elas podem contribuir ativamente para amenizar este triste cenário. 

Em entrevista exclusiva para esta matéria, Neila Lopes, Head de Diversidade e Cultura da Sanofi Brasil, conta a sua visão sobre o papel que as empresas têm em fomentar a Diversidade, Equidade e Inclusão:

Quando a gente tem uma postura estruturada, intencional, com investimento, conectada com um negócio relacionado à diversidade, equidade e inclusão abre-se um mundo de possibilidades: de apoio, de incentivo à entrada, à qualificação, à permanência e ao crescimento das pessoas de grupos minorizados em um ambiente corporativo. Por isso, é importante falar do tripé. Não basta a diversidade, que é a presença da diferença de todas as pessoas no ambiente. A gente precisa falar também da inclusão, que é a garantia de que todas as pessoas terão acesso às mesmas oportunidades, à participação nas discussões, a trazer o seu pensamento, a sua perspectiva e suas contribuições”

Neila ainda fala sobre o conceito de equidade no ambiente corporativo e destaca a necessidade de criar condições justas e equitativas para todos os membros da equipe:

“Quando a gente fala de equidade, aí entra um papel ainda mais ativo no ambiente corporativo das empresas, que é ter um olhar de que a meritocracia, sem o ajuste das condições para que todos saiam do mesmo ponto de partida, é uma falácia. Então, a gente precisa ter ações que vão assegurar que todos tenham iguais condições de competir a uma vaga, de competir a uma promoção, e isso passa, sim, por um olhar intencional das empresas, das lideranças, pela consciência contra os vieses.”

Existem inúmeros benefícios de incluir jovens mulheres negras e periféricas no ambiente corporativo, não somente para elas, mas também para as organizações, além de contribuir de forma direta para alcançar a justiça social e reparação histórica.. Mulheres negras ainda estão sob o maior número de opressões na sociedade, quando falamos de acesso aos espaços, de saúde, de escolaridade, de emprego digno, de remuneração etc. É importante discutir essa pauta e ter um olhar atento às particularidades, já que cada pessoa tem uma trajetória, uma história de vida que pode agregar de formas diferentes às de profissionais já inseridos na organização. Mas é preciso lembrar: inserir é diferente de incluir! Para além da presença dessas pessoas, é essencial refletir sobre como será possível criar um ambiente seguro, onde jovens mulheres negras  se sintam ouvidas, legitimadas, empoderadas e confiantes para estarem nesse espaço – assim como outras pessoas que não fazem parte de um grupo minorizado. 

Ainda sobre esses aspectos, Katiana Normandia, consultora de diversidade, equidade e inclusão e fundadora da Kinah, Desenvolvimento Profissional, traz algumas provocações:  “Quando a gente está falando de gênero e de trabalho digno, quem está abaixo aqui na pirâmide são mulheres pretas. Então, como é que a gente muda essa estrutura? Como é que a gente possibilita ambientes de trabalhos dignos para que jovens mulheres negras possam adentrar, se desenvolver, permanecer e fazer carreira? Então, a gente precisa criar ambientes saudáveis para que essas jovens mulheres possam adentrar no mercado de trabalho, no mundo do trabalho”.  

Para além de incluir e inserir, é preciso  pensar em um passo anterior a essas etapas, olhando para como são implementados os processos de atração e seleção, que são a principal porta de entrada para empresas e/ou organizações.

“É importante refletir quem são as pessoas que acompanham, que monitoram e que lideram os processos seletivos. Elas possuem letramento racial? Elas têm entendimento do que são ações afirmativas? Eu trago essas reflexões para que a gente possa compreender que se a pessoa não tem consciência racial ou de classe, ela não consegue liderar um processo seletivo sem um viés inconsciente que exclui, que retira muitas pessoas maravilhosas que só precisam de uma oportunidade.”, completa Katiana.

Desafios para as boas práticas de Diversidade e Inclusão no mundo do trabalho 

A jornada para as boas práticas de Diversidade e Inclusão é muito mais custosa em algumas organizações e ambientes corporativos do que em outros. Por isso, é de grande importância contar com ajuda especializada – como, por exemplo, o trabalho desenvolvido por consultorias especializadas nas temáticas de diversidade, equidade e inclusão. 

O papel das consultorias é realizar um diagnóstico e, a partir dele, dar direcionamento de possíveis ações e soluções para os problemas identificados; além de fornecer informações relevantes sobre o cenário de mercado ou trazer resultados de pesquisas relacionadas ao tema que a organização quer tratar. A principal vantagem de contratar uma consultoria externa é que ela traz um olhar diferente para a empresa, fornecendo insights valiosos que muitas vezes não seriam alcançados em um trabalho interno. Katiana Normandia, consultora de Diversidade, Equidade e Inclusão e fundadora da KINAH Desenvolvimento Profissional, traz um pouco de sua experiência sobre como um olhar externo faz a diferença: “A gente consegue verdadeiramente amplificar as ações nessa pauta porque estamos de fora conseguimos, muitas vezes, retirar vendas que já estão enraizadas, tirar alguns vieses inconscientes dos profissionais que trabalham nessas organizações, mostrar quanto e porque a  diversidade é importante”.

É fundamental extinguir os preconceitos enviesados nos processos de tomada de decisão nas empresas. Para isso, é necessária uma investigação completa das políticas e dos processos internos para entender quais delas passam uma imagem oposta à de inclusão e diversidade. Para isso, são necessários alguns passos como: conscientizar as lideranças a partir de letramentos, identificar obstáculos, adaptar processos, mensurar e divulgar resultados, avaliar como e em quais canais divulgar oportunidades abertas, cuidar para promover um ambiente de trabalho seguro e potente – além de buscar o apoio de consultorias de  Diversidade, Equidade e Inclusão, que podem ser peças-chave para alcançar esses objetivos. Somente desta forma será possível aumentar a representatividade, bem como garantir a inclusão  e a permanência qualificada de jovens mulheres negras dentro da organização.

Observando os pontos abordados anteriormente, conseguimos perceber a necessidade de olhar para a Inclusão e Diversidade na organização em seus processos, desde a gestão, até os cargos operacionais. Mirene Rodrigues, Gerente de Desenvolvimento Organizacional na Tide Setubal, reforça a importância de um olhar 360º: “Se você promove diversidade apenas em uma parte da organização, você está promovendo diversidade. Mas e as instâncias de decisões, como estão? Tem a diversidade com as suas proporções, seja de raça ou seja de gênero? Você precisa olhar efetivamente para os espaços de decisão e de gestão dessa organização como um todo. “

Boas práticas, bons exemplos

Ao longo do texto, reafirmamos a importância de um olhar atento para Diversidade, Equidade e Inclusão no mundo do trabalho. A seguir, listamos algumas das boas práticas que têm sido implementadas com sucesso por organizações comprometidas que compõem a Rede Multiatores do Projeto MUDE com Elas.


Kinah Desenvolvimento Profissional

A Kinah nasce em um lugar de fazer um processo de reflexão de carreira para profissionais pretos e periféricos. “Olhando para mulheres e para essa juventude preta e periférica que é excluída dos processos seletivos, a consultoria vem nessa caminhada de refletir carreira, de falar para essa profissional que ela pode escolher sim a sua profissão, que ela pode ser o que ela deseja ser”, conta Katiana.

Plataforma ALAS – Fundação Tide Setubal

Trata-se de uma plataforma colaborativa, com foco em acelerar a equidade racial em posições de liderança e com destaque especial em proporcionar acesso à oportunidades formativas. A Fundação Tide Setubal se une a Rede Multiatores com o  objetivo de sensibilizar profissionais de Recursos Humanos de várias empresas – gerando, assim, um impacto positivo dentro dessas organizações.


VDI Brasil

A maior associação técnico-científica da Europa, composta por engenheiros que promovem temas técnicos entre Brasil e Alemanha, também possui um ótimo exemplo de boas práticas.  Um dos seus programas, o Industry4Her, tem como objetivo preparar mulheres para cargos de liderança na Indústria 4.0, focando na formação técnica e de soft skills de mulheres em diferentes fases de suas carreiras. Desta forma, a iniciativa as prepara para assumir posições de liderança, inclusive, através da oferta de bolsas de estudo para mulheres em situação de vulnerabilidade.

Em um mundo que necessita de equidade, criar vagas afirmativas para pessoas não é apenas uma ação corretiva, mas um grande passo em direção à justiça social e a reparação histórica, que deve ser fomentada todos os dias, por todas organizações. Dessa forma abrimos espaço para narrativas diversas e talentos inexplorados por falta de oportunidades.

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