Segurança alimentar. Já ouviu falar? De acordo com a FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – A segurança alimentar é o direito de ter acesso a uma alimentação adequada, saudável, permanente e sustentável; um direito de todos. Contudo, isso não é, nem nunca foi o que sentimos na realidade, pois o que contemplamos é outra realidade bem diferente.
A pergunta de milhões é a seguinte:
Como o Brasil, que produz tanto, não tem comida para toda a população?
Dentre tantos fatores econômicos, sociais e ambientais, é difícil apontar para um único problema, já que a resposta não está no singular, mas sim no plural.
Em meio ao avanço frequente na linha de produção de alimentos, o cenário brasileiro evidencia cada vez mais o agravamento da fome no país. São conjunturas controversas, porém reais. E, como consequência da pandemia, hoje, menos da metade da população brasileira vive de fato uma situação de segurança alimentar – o que pode sim ser explicado em razão do desemprego, ocasionado durante e pós-pandemia. Mas o que não deveria ser justificável é que, em 2018, antes da pandemia, mais de 30% dos residentes do país estavam em algum dos três níveis de insegurança alimentar da POF – Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE.
Segundo a CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, o Brasil está entre os 5 maiores produtores e exportadores de alimentos provenientes de atividade agrícola do mundo. Esse fato já seria suficiente para entender a dimensão da capacidade produtiva versus a demanda de consumo da população brasileira.
Bem verdade é que tudo está correlacionado com as produções do agronegócio, desde o grão de milho colhido nas safras até aquele salgadinho industrializado do supermercado.
No entanto, o que não permanece evidente é: quem alimenta quem?

Sem dúvida, uma parcela do que é produzido em larga escala no Brasil pelas grandes empresas de agronegócio é consumido em território nacional – seja diretamente, in natura, seja indiretamente, na composição de outros produtos. Entretanto, uma grande parcela desses alimentos, senão seu todo, são denominados commodities agrícolas, e são exportados para o mundo, enquanto 70% dos alimentos consumidos no Brasil provém da agricultura familiar que, como evidenciado pelo documentário Como o Brasil que alimenta 1 bilhão no mundo tem 10 milhões passando fome, são os verdadeiros protagonistas dessa história.
Tendo a agricultura familiar como o principal protagonista, sustentando o mercado, faz-se necessária a ação de programas e iniciativas que promovam o crescimento do pequeno e médio produtor rural frente aos desafios com os quais a atividade rural se depara: programas de crédito e financiamentos que objetivam o desenvolvimento tecnológico a fim de melhorias nas produções, bem como a potencialização da qualidade nutritiva – porque na segurança alimentar não basta apenas ter acesso aos alimentos, mas também ter acesso a alimentos com qualidade, ricos em nutrientes essenciais e livres de quaisquer contaminações.
Porém, o alto custo de juros, a falta de acesso à informações, os cortes de verba e não aprovações de projetos, tornam o crescimento desta parcela significativa na oferta para o consumo interno mais lento. Sem vazão a essas oportunidades, a agricultura sofre com necessidades de inovação, desenvolvimento de seus processos produtivos e com a competitividade frequente do mercado.
À exemplo, as mudanças climáticas são um dos fatores menos notáveis, ainda que relevantes na contribuição da insegurança alimentar, isto porque têm relação direta com a cadeia produtiva. Quando o clima começa a mudar drasticamente, elevando as temperaturas, aumentando a desertificação e principalmente, alterando o ecossistema local, os impactos negativos são visíveis, posto que muitos agricultores perdem seus animais, horticulturas e terras, em virtude da seca, chuvas torrenciais e outros fenômenos naturais, resultando em uma queda da produtividade e, consequentemente, diminuindo a oferta de alimentos, aumentando os preços que, por conseguinte, não serão acessíveis a toda a população.
Isso sem mencionar a desvalorização da moeda brasileira no tempo: R $100,00 não compram a mesma quantidade de alimentos que há dois anos atrás. Isso sem mencionar o impacto de conflitos internacionais como entre a Rússia e a Ucrânia nos últimos tempos, que afetaram os custos e preços de produtos agrícolas no Brasil. Isso sem mencionar a influência da recente alta inflação nos EUA para a economia brasileira. Isso sem mencionar a influência do dólar sobre o real.

Percebe como está tudo conectado?
A segurança alimentar no Brasil ainda é uma barreira a ser ultrapassada. Assim como em uma organização todos os departamentos são integrados, em um país todas as partes são interligadas, por isso, ao abordar a segurança alimentar, enxergam-se lacunas em várias direções e de aspectos diferentes: se por um lado, as repercussões das mudanças climáticas e a pesada responsabilidade dos pequenos produtores rurais pesam na balança, do outro lado, as falhas na governança do país, as crises mundiais e nacionais e a influência do dólar, tornam inúmeros os fatores que permeiam a problemática da fome no país.
O Brasil pode ser representado e reconhecido pelo agro, mas enquanto não houver políticas capazes de gerar empregos e renda para que todos tenham acesso aos alimentos com qualidade e diversidade, a situação continuará a mesma, pois o problema em si não é a quantidade de alimentos; passa também pela distribuição e todo o processo envolvido na produção e comercialização.