Potência. Sugiro que essa seja a primeira palavra que se deva pensar quando se fala sobre transformação social.
Mas… Por quê?
Para tentar responder essa questão, temos como ponto de partida a arte e a expressão artística, sendo elas apenas um dos diversos pontos que podem ser compreendidos quando busca-se refletir sobre o tema central deste artigo.
A arte se desenvolveu na evolução biológica do ser humano. Foi no decorrer dos milênios que ocorreram diversas transformações no cérebro e no processamento e discernimento da realidade, o que fez com que fosse aprimorada a cognição e, assim, a concretização das imagens como forma de comunicação.
Sabe-se, por meio disso, que o caminho que a arte percorreu na sociedade foi amplo e diversificado, estabelecendo-se, a priori, como ferramenta mediadora da expressão comunicativa dos seres humanos, sendo desenvolvida mais adiante, ao longo do tempo, como algo conceitual, subjetivo e estético.
No entanto, apesar das diferenças substanciais de uma e outra época, nota-se que tanto como ferramenta quanto como apropriação subjetiva, conceitual e estética, a arte sempre abordou a expressão do ser humano – ou seja, sempre buscou comunicar algo.
Assim, baseado em Arthur Danto, grande filósofo e crítico de arte, é possível entender a arte como um conceito aberto, que não necessita de definição, pois não há possibilidade de englobar tudo que constitui a arte em algo definido, e se assim fizesse, essa ‘teoria geral da arte’ seria facilmente rompida com a chegada de algo que difere da definição e que mesmo assim pode-se denominar arte.
Para que se possa dar seguimento, faz-se necessário percorrer junto à arte e sua potência de transformação, o caminho da filosofia. Ainda em Danto, vê-se evidente que a ideia da arte está imbricada na filosofia desde os primórdios, uma vez que a maioria dos filósofos buscaram compreender o mundo, compreendendo também a arte e suas mais diversas manifestações e expressões na vida em sociedade.
Em primeiro plano, antes mesmo que haja uma concepção sobre o que é arte, pensar a respeito da beleza era um dos objetivos centrais do pensamento antigo grego e o entendimento da natureza como algo belo vem quase de imediato para a época, uma vez que entendiam a natureza como um todo ordenado e, de forma consequente, tudo que é ordenado é belo. Pensamento que ganha seu ápice em Aristóteles.
Para Aristóteles, o conceito de arte pode ser entendido como tudo aquilo que é criação humana, partiremos, então, deste princípio.
A filosofia aristotélica traz para a conversa o conceito de Eudaimonia – potencial pleno de realização de cada um, excelência da ação humana, que possibilita a virtude e a felicidade máxima – para que seja entendido o papel da arte para o ser humano. Essa Eudaimonia pode ser alcançada e atingida pela apreciação ou pela expressão da arte e não só por mera cópia de uma beleza da natureza, como diriam os pensadores antes dele.
É também nesse pensamento aristotélico que surge a ideia de ato e potência, em que o primeiro é algo que existe no mundo e o segundo se dá pelo que este algo pode vir a ser.
Assim, então, pode-se induzir que a arte – toda criação do ser humano, segundo esse pensamento – é processo de potência, pois não seria o que é se não houvesse o vir a ser que se tornou arte, e que, desfrutando desse processo de potência, poderá o ser humano atingir um estado Eudaimônico da existência, em que há felicidade e virtude na plena contemplação da beleza da arte.
Mais adiante na história da filosofia, chegamos em Espinosa.
Aqui, a ideia de potência (ou conatus, para o filósofo) desenvolve-se de uma outra forma: Entende-se a potência de agir do ser inteiramente ligado aos afetos, em que só se pode compreender os afetos como afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída. Ou seja, todos os seres são afetos pelo mundo e esses afetos podem alegrar ou entristecer; quando alegram, a potência do ser é aumenta e, quanto entristecem, ela diminui.
O ser humano, então, segundo Espinosa, tem a necessidade de buscar afetos de alegria para que sua potência seja sempre aumentada. Dessa forma, a arte parece ser um terreno mais que fértil para afetar e ser afetado, uma vez que a arte é expressão e criação humana – como diria Aristóteles – e a expressão humana é fruto dos afetos, já que demonstramos afecções pela arte e nos afetamos quando apreciamos (ou não gostamos) dela.
Portanto, é natural que se chegue à ideia de entender a arte e o fazer artístico como forma de traduzir as afecções do corpo no mundo, e de, por consequência, gerar afetos que possibilitam um aumento na potência do ser – desde que guiados pela consciência do afeto em questão –, abrindo espaço para um ser livre e transformador de sua realidade.
Passados mais alguns séculos, chegamos no ponto alto da potência do indivíduo mediada pela arte: Nietzsche.
Para o filósofo, a arte é definida pela força de motivação do artista, não necessariamente pela criação, não necessariamente pela apreciação, mas pela vontade de potência ativa que move o ser para que seja feito aquilo que se pode chamar de arte.
Logo, a beleza se torna consequência da arte que, por sua vez, torna-se tudo aquilo que se pode demonstrar potência.
É possível, com isso, conceber o conceito de potência para Nietzsche como sendo um estado de fluxo de energia vital em seu ápice de intensidade, onde o ser humano se torna ‘senhor de si’ e tem disposição tal que cria e molda sua realidade, fazendo-se a si mesmo e se transformando em super-homem ou além-do-homem (Ubermensch, nas palavras do filósofo, que para ele se define como o ápice do ser humano, seu maior grau de entendimento de si, do mundo e dos outros).
Assim, para Nietzsche, só com o exercício da arte é possível reorganizar as energias do mundo para que a expressão da potência transforme a realidade. Dessa forma, será belo tudo que transparecer essa potência ativa de criação e todo agir artístico que leva para um estado eufórico de expressão da vida.
Assim, segundo essa lógica, torna-se possível julgar os artistas e aqueles que expressam sua essência e seus sentimentos através de diferentes formas de arte como pessoas de força ativa, cuja vontade de potência e criação é grande e, por isso, estão mais próximas de transformarem a sociedade por meio do exercício de sua potência e intensidade criadora.
A partir disso, tem-se a ideia da importância da potência para criação da arte, do belo e da transformação social a partir de um agir artístico.
Portanto, a arte é a própria a energia vital do artista, uma vez que toda e qualquer manifestação humana é regida pelas pulsões de quem a faz e são essas mesmas pulsões que tem o poder modificador necessário para que se altere e transforme a sociedade.
Ana Mae Barbosa, um dos maiores nomes do Brasil nos campos da arte e da educação, completa esse pensamento ao afirmar em seu livro “Arte-Educação no Brasil” que: “por meio da arte, é possível desenvolver a percepção e a imaginação, apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo ao indivíduo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada” (2008, p. 18).
A partir dessa reflexão, é possível refletir também acerca do papel da educomunicação – campo que busca a abertura de espaços e de incentivo a expressão comunicativa e de práticas educativas – nesse processo, uma vez que tem por objetivo ampliar as condições de expressão da juventude como forma de engajá-la em seu próprio processo educativo.
Assim, ao pensar a arte no processo educativo, com intencionalidade inter e transdisciplinar, torna-se possível entender sua potência transformadora, uma vez que um ato educativo voltado para a expressão artística pode proporcionar uma compreensão e consciência da realidade, dos afetos e afecções, assim como o aumento da potência de agir, da vontade de criação e, por consequência, da ação de transformação social.
Por isso, podemos entender a arte como um conjunto de relações que tem o poder da inquietação da sociedade, evidenciado ao longo da história, em que os artistas foram ocupando diferentes lugares e se definindo com uma pluralidade de práticas e técnicas que trouxeram até nós toda bagagem que se tem hoje para pensar a respeito da expressão e do sentimento.
Dessa forma, parece impossível, ou mesmo pouco provável, que haja transformação sem haver expressão de uma vontade da potência, ou seja, se há barreiras para a expressão e para o exercício da vontade e da energia de criação humana, haverá transformação e haverá transformação por meio da arte.
Independente de sua forma, a arte segue modificando o pensamento e o olhar do ser humano, a potência transforma a arte e a arte afeta outros, potencializando-se com ela e criando um ciclo de transformações. Por conclusão, então, vemos que a arte nada mais é que puro ímpeto de criação e forma de transformação pela potência, seja qual for. É a intervenção do ser humano na realidade a partir da abstração da mesma e o entendimento de que sua expressão é parte integrante da transformação social.