Articulações e iniciativas em rede são caminho para ampliar oportunidades de trabalho

A inclusão e o desenvolvimento de jovens mulheres negras no mercado de trabalho são compromissos urgentes com a transformação social.

Por Thaynara Floriano, da Redação – Agência Jovem de Notícias

Os arranjos estruturais presentes em nossa sociedade são consequências da hierarquização que não só fundamenta, como é responsável pela manutenção das desigualdades sociais. Há muito tempo o Brasil-Colônia não existe mais, mas vivemos todos os dias os efeitos dessa estrutura colonial. Em nosso país, a maior parte da população vive em ambientes onde o acesso à educação é limitado. Sendo assim, é essencial que políticas de inclusão estejam nesses espaços e alcancem essas pessoas, pois sabemos que a educação de qualidade é a única forma de diminuir desigualdades.

Quando políticas públicas não são criadas para atuar no avanço social, a consequência afeta diretamente as mulheres mais pobres, contribuindo para a desigualdade na educação que se manifesta desde o ensino fundamental e se agrava ao passar dos anos. A falta de proximidade do contexto escolar com a realidade dessas meninas e a falta de articulação para a transformação dos espaços continua colocando mulheres negras em lugares cada vez mais longe da educação e mais próxima de trabalhos de exploração. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mais de 65% dos jovens que não estudam e não concluíram o ensino médio, são negros. E das 23,7 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos nessas condições, 15,6 milhões são pretas ou pardas.

Mesmo quando acessam o ensino superior e as qualificações necessárias, jovens mulheres negras, por estarem numa condição social de opressão, sofrem as consequências das desigualdades e preconceitos no acesso ao trabalho digno. Sem a escolarização e profissionalização, essa condição é ainda mais acentuada, ocasionando um efeito mais prejudicial na sua vida e para o seu desempenho no mercado de trabalho. Muitas acabam vivendo na miséria e buscando caminhos alternativos para se alimentar, outras acabam trabalhando em serviços precários, sem assistência, salário digno e seus direitos assegurados. Cargos que exigem força ou as colocam em um espaço de servidão ou a uberização, são também comuns.

Segundo dados da Pnad Contínua, referentes ao 4º trimestre de 2021, os trabalhadores domésticos já somam cerca de 6,2 milhões de pessoas só em nosso país. Destes, 92% são mulheres (o equivalente a 5,7 milhões de pessoas) e, dessas mulheres, 3,9 milhões são negras. Dos trabalhadores domésticos, 30% não possuem carteira assinada, facilitando a exploração do trabalho.

Um dos papéis que deveria ser fundamental dentro de empresas seria incentivar e implementar ações afirmativas para a inserção de jovens negras, visando diminuir ou, pelo menos contribuir para a diminuição da desigualdade social estruturada pelo racismo. As ações afirmativas de instituições, fundações e espaços de educação e cultura são políticas que garantem o acesso de mulheres marginalizadas à educação, ao lazer e à cultura. É o caso do projeto MUDE com Elas, que promove, entre outras ações, espaços de debate para fortalecer a atuação de uma rede multiatores no enfrentamento aos desafios de gênero e raça para a inserção e permanência de jovens mulheres negras no mercado de trabalho. Contribuir para o desenvolvimento social trazendo, inclusive, as juventudes para o centro da conversa, é o objetivo desses encontros de reflexão na contraposição a essas desigualdades.

Encontro online: articulações e iniciativas em rede

No último dia 6 de julho aconteceu o 5º Encontro de Reflexão do projeto Mude com Elas, iniciativa das organizações Ação Educativa, AHK São Paulo – Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha em São Paulo, do escritório da terre des hommes Alemanha em São Paulo e com o apoio da Viração Educomunicação. Nele, pautamos as articulações e iniciativas em rede para a promoção de oportunidades para jovens mulheres negras no mercado de trabalho com duas convidadas especiais: a Viviane Soranso (Coordenadora do Programa de Raça e Gênero da Fundação Tide Setubal), a Scarlett Rodrigues (Coordenadora de Projetos em Direitos Humanos do Instituto Ethos) e mediação da Lucia Udemezue, Coordenadora do Mude com Elas pela Ação Educativa. O evento teve como principal objetivo discutir possíveis ações de organizações e empresas para a garantir a inserção produtiva e digna de jovens mulheres negras no mercado de trabalho.

Conhecendo o trabalho da Fundação Tide Setubal

O encontro foi iniciado com a apresentação de Viviane Soranso, psicóloga que atua com adolescentes, jovens e temáticas transversais, mas também coordena o programa de raça e gênero da Fundação Tide Setubal.  A instituição nasceu em 2005, com o objetivo de atuar diretamente pelo desenvolvimento local do bairro São Miguel Paulista, zona leste da cidade de São Paulo – mas, a partir de 2017, expandiu e hoje atua apoiando projetos de organizações, coletivos e grupos nas periferias urbanas de todo o país.

A Fundação Tide Setubal trabalha com três estratégias de atuação:

  • 1- Práticas de Desenvolvimento Local: Desenvolvimento humano, econômico e urbano no Jardim Lapena.
  • 2- Apoio e fomento a agentes e causas: Fortalecimento de organizações, redes, lideranças e soluções periféricas e fomento à pesquisa através de editais. 
  • 3- Programas próprios de incidência: Influência da opinião pública em temas fundamentais para o enfrentamento às desigualdades.

O programa de raça e gênero foi criado sob o objetivo de olhar para a diversidade em espaços de poder, a fim de fortalecer o desenvolvimento pessoal, educacional e profissional; sobretudo de pessoas periféricas, negras, LGBTQIAP+, mulheres e outros grupos sociais marginalizados. A atuação é focada no fortalecimento de ações afirmativas, tendo como principal pauta a equidade social dentro do campo do investimento social privado e a implementação de ações de fomento com foco no desenvolvimento de habilidades e competências de pessoas negras.

Nesse sentido, a fundação desenvolveu a plataforma Alas, que promove estratégias para criar oportunidades de formação e fortalecimento das trajetórias de lideranças negras, bem como para envolver e engajar instituições e lideranças de pessoas não-negras na pauta da justiça racial em espaços de tomada de decisão.

A plataforma atua através de três eixos: asas, elos e caminhos.

  • O Eixo Asas é voltado para quem está cursando ou concluiu o Ensino Médio e mora em periferias. Neste eixo, o edital Asas oferece atividades voltadas para o desenvolvimento de habilidades pessoais, formação política, empreendedorismo, empregabilidade e idiomas, além da oportunidade de criar projetos voltados para melhoria de bairros periféricos. 
  • O Eixo Elos promove editais de apoio voltados para jovens estudantes e adultos de origem periférica que estejam em busca de cursos de graduação ou cursos preparatórios para mestrado, concursos públicos e carreiras jurídicas em instituições de excelência que atuem nas respectivas áreas.
  • O Eixo Caminhos atua fortalecendo lideranças negras para que possam ocupar espaços de poder em diferentes campos da sociedade. Neste eixo, há dois editais: o Traços e o Elas Periféricas; sendo que o primeiro apoia lideranças negras com idade acima de 20 anos a potencializarem as suas habilidades e a construir uma sociedade pautada pela equidade, e o segundo apoia mulheres negras que transformam os seus territórios por meio de suas iniciativas.

Na apresentação, Viviane deu destaque ao Edital Traços, do Eixo Caminhos, que fomenta a formação, o fortalecimento e o aprimoramento de lideranças negras em suas carreiras. Lançado em 2020, o Edital Traços selecionou 31 pessoas em sua primeira edição, e 71 em sua segunda edição – iniciada em 2021. O edital oferece um aporte financeiro no valor de 15 mil reais para as pessoas selecionadas investirem em seus planos de desenvolvimento, contemplando atividades que contribuam com as suas carreiras e trajetórias. Essas lideranças recebem também mentorias e participam de encontros com lideranças negras inspiradoras. Em 2021, 86% das lideranças consideraram ter alcançado os resultados que esperavam para as suas respectivas carreiras naquele ano, como aprovações em programas de mestrado e doutorado e promoções no trabalho.

Em relação aos desafios do projeto, Viviane contou que boa parte das pessoas selecionadas para o edital tiveram que adaptar os seus planos de desenvolvimento no meio do caminho por mudarem de objetivos ou por necessidades outras que apareceram em suas trajetórias, como a de investir em acompanhamento psicoterapêutico. Para responder a esta demanda, a segunda edição do Edital Traços (em 2021), passou a disponibilizar psicoterapia para todas as pessoas contempladas que sentissem o desejo de contar com um acompanhamento profissional.  É importante destacar que iniciativas como essa não devem propor planos rígidos de desenvolvimento, sobretudo por atuarem com populações em situação de vulnerabilidade.

Quer saber mais? Conheça algumas ações realizadas pela Tide Setubal:

  • Oficina – Trilhas para Equidade Racial

Debater e apresentar práticas em favor da diversidade no ambiente profissional é o objetivo da oficina “Trilhas para Equidade Racial: Encontros gratuitos para profissionais e estudantes de RH”.

A formação acontecerá em 31 de agosto e 29 de setembro, de forma gratuita e online, reunindo profissionais e lideranças do segmento de Recursos Humanos para debater e apresentar aspectos relacionados à promoção da equidade no mercado de trabalho, passando pelo processo de contratação até a implementação de iniciativas com esse propósito.

O processo é idealizado pela Plataforma Alas e será realizado pela organização Piraporiando, negócio de impacto social que desenvolve atividades diversas em favor da educação antirracista e da promoção de equidade de gênero. Saiba mais neste link.

  • Publicação – Orçamentos Sensíveis a Gênero e Raça

O material foi desenvolvido pela Fundação Tide Setubal, em parceria com a Tenda das Candidatas. A ideia é instrumentalizar e sensibilizar gestores públicos estaduais e municipais sobre as desigualdades de gênero e raça, contribuindo para que esses profissionais reconheçam a importância de implementar ações no planejamento orçamentário para a transformação e o desenvolvimento sustentável de mulheres, quilombolas, indígenas e pessoas negras. Acesse a publicação pelo link e faça o download gratuito.

Conhecendo o trabalho do Instituto Ethos

Na segunda parte do encontro, Scarlett Rodrigues, coordenadora de Projetos em Direitos Humanos, iniciou a sua apresentação falando sobre o Instituto Ethos, uma organização da sociedade civil que atua com responsabilidade social empresarial. Ela explicou que o instituto atua a partir de quatro eixos, a saber: direitos humanos, gestão para o desenvolvimento sustentável, integridade e meio ambiente, implementando projetos internos e em parceria com outras entidades da sociedade civil.

O Instituto acredita que as empresas têm um importante papel no desenvolvimento da sociedade e precisam assumir responsabilidades, construindo práticas mais conscientes em suas atuações. Dentro do eixo de projetos em direitos humanos, coordenado pela convidada, são desenvolvidas múltiplas ações voltadas para as juventudes em seus diferentes recortes e agendas. Neste contexto, é fundamental que as ações voltadas para as juventudes no campo profissional identifiquem e considerem as desigualdades e violências que atingem esses sujeitos. Não é possível desenvolver projetos que apenas promovam o desenvolvimento profissional, é preciso que as diferentes organizações se engajem em práticas e em discussões a respeito da criação e manutenção de políticas públicas para o enfrentamento  das violências que atingem as juventudes para que, dessa forma, estas pessoas possam se desenvolver plenamente. É urgente e necessário ter um olhar sensível para a população jovem, negra, LGBTQIAP+ e outras maiorias marginalizadas. Para isso, o instituto trabalha em rede com outras organizações, como o GOYN e a Ação Educativa, construindo agendas comuns pelos direitos das juventudes.

Um dos eixos do programa de direitos humanos é trabalhar a sensibilização de empresas para não só contratar, mas receber jovens negros, apoiando na construção de politicas internas de diversidade que preparem o terreno para a inserção desses jovens. Assim, o objetivo principal é criar espaços seguros e que não perpetuem violências no mercado de trabalho. Esta capacitação se dá através de palestras, cursos, workshops, rodas de conversas e outras ações afirmativas, a fim de fomentar programas que visam garantir que as juventudes também ocupem os espaços de decisão e liderança dentro das empresas. Além disso, o Instituto Ethos cria ferramentas de monitoramento para que as empresas possam acessar indicadores de diversidade nesses espaços, observando qual é o status da empresa no âmbito da Diversidade, Equidade e Inclusão, bem como onde ela deseja chegar e quais estratégias precisam ser adotadas para alcançar essas metas.

As empresas têm um grande papel e um grande espaço na sociedade, e devem contribuir com melhores práticas e melhorias sociais. Por isso, o Instituto também atua no reconhecimento público de boas estratégias para inspirar e estimular outras empresas a desenvolverem suas próprias iniciativas. Há muitas coisas boas sendo feitas, mas o que as empresas precisam é da vontade de se comprometer e multiplicar essas práticas. Nesse sentido, o Instituto também atua em parceria com a prefeitura da cidade de São Paulo no Selo de Direitos Humanos e no Selo de  Igualdade Racial, que premiam iniciativas que se destacam ao trabalhar com essas temáticas. Os editais para o recebimento destes selos também são importantes para mapear o que as empresas estão fazendo, quais são as principais barreiras e oportunidades e como evoluem de um ano para o outro. Afinal, reconhecer publicamente boas práticas dá materialidade ao que pode ser feito e inspiração para outros espaços.

Por que atuar em rede, com multiatores?

Em um país como o Brasil, em que a população de pretos e pardos chega a 56% – segundo dados do IBGE -, mas dentro das empresas não temos a mesma realidade, é fundamental que existam projetos de impacto social que abram as portas do mercado de trabalho para as jovens mulheres negras. É com este objetivo que o ‘MUDE com Elas’ atua: buscando garantir a criação de políticas públicas e afirmativas dentro das empresas, a partir de uma articulação em rede entre os setores público, privado e a sociedade civil. 

Uma educação de qualidade, preparação, qualificação e políticas de equidade são as peças fundamentais para garantir uma maior empregabilidade e a transformação da realidade das jovens mulheres negras brasileiras.

Assista o encontro virtual na íntegra:

Sobre o projeto

O MUDE com Elas – Multiatores superando a desigualdade de gênero e raça’ é uma iniciativa implementada em parceria pela Ação Educativa, AHK São Paulo – Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha em São Paulo e do escritório da Terres des Hommes Alemanha em São Paulo, com apoio da Viração Educomunicação por meio da Agência Jovem de Notícias.

Palestra sobre o projeto Preta Comprando de Preta. Reprodução Uneafro

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