Amor à Flor da Pele traz à tona o que a arte deveria ser, mas não pode

Dizem que o tempo é o bem mais valioso da atualidade. O tempo urge. O tempo corre. Tempo é dinheiro. Mas até que ponto isso pode reger nossas vidas? Como a arte vai seguir essa lógica? Pressa e arte não caminham juntas. Em Amor à Flor da Pele (2000), a rapidez não é nem cogitada. É preciso desacelerar. No filme, o tempo é rei, como diz Gilberto Gil, mas um rei sábio e justo. Penso que é dessa forma que o cantor imagina essa figura, essa quase divindade.

Por Sofia Leite

Legenda: A sétima arte desafia padrões, até o do tempo. Foto: Kyle Loftus/Pexels

Amor à Flor da Pele é um filme dirigido pelo chinês Wong Kar-Wai. Vencedora de prêmios como o César de melhor filme estrangeiro, a obra nos convida para acompanhar a vida de dois vizinhos, Sr. Chow (Tony Leung) e Sra. Chan (Maggie Cheung), recém chegados a Hong Kong. O ano é 1962, época da Revolução Cultural na China. Devido ao controle autoritário de Mao Tsé-Tung, muitos são obrigados a fugir do país, inclusive o diretor do longa-metragem. É assim que os personagens de Tony Leung e Maggie Cheung se encontram. Ambos alugam um quarto dentro da casa de famílias que não conhecem. O inchaço populacional de Hong Kong leva os dois, e seus respectivos cônjuges, a se tornarem vizinhos de porta. Com a demanda por moradia sendo maior do que o que Hong Kong conseguia oferecer, um quartinho foi a única opção possível para muitos.

A paleta de cores usada habitualmente por Wong Kar-Wai, em obras como Anjos Caídos (1995) e Amores Expressos (1994), continua presente. Essa marca registrada, e outras particularidades características do diretor, é apreciada no mundo todo e já rendeu inúmeros prêmios. O verde e o vermelho fazem parte da narrativa. Além disso, o posicionamento das câmeras e a cenografia ajudam a contar a história. As paredes formam molduras que conduzem nossos olhos até os personagens, a câmera é colocada dentro do guarda-roupa quando Sr. Chow e Sra. Chan se sentem presos em uma situação e os rostos são dispostos atrás de janelas abertas quando a liberdade finalmente chega. Nenhum ângulo é por acaso. Assim como a lentidão também não é. Afinal, em meio a todo aquele contexto histórico retratado no filme, que sentido tem a pressa?

Amor à Flor da Pele é um manifesto contra a rapidez imposta às mentes criativas. Os relógios, que aparecem com frequência como protagonistas, as repetições de cenas e a exposição da rotina entediante dos personagens dão o tom lento e contemplativo do longa. É isso que faz com que estejamos diante de uma verdadeira obra de arte. Wong Kar-Wai desafia a verdade capitalista e questiona o valor que damos a certas coisas. A trilha sonora incrível, assinada por Shigeru Umebayashi, sofre poucas alterações ao longo do filme. As músicas se repetem. E qual seria a razão para que o contrário ocorresse se só com a escuta prolongada conseguimos compreender e apreciar de verdade?

“Não seremos como eles”, dizem os personagens principais ao longo da obra. Com outro sentido dentro do contexto do filme, essas quatro palavras conseguem resumir o que Amor à Flor da Pele representa em relação ao restante da indústria cinematográfica. Wong Kar-Wai se propõe, de fato, a não ser como eles, como os outros. O que o capital ordena não é relevante. Não aqui. O diretor, que iniciou a carreira artística depois de se mudar para Hong Kong, é um ponto fora da curva. Sua obra é um respiro em meio ao caos e à pressa do dia a dia que somos obrigados a viver. Wong Kar-Wai pode até não conseguir, com isso, mudar a lógica doentia que rege a sociedade em que estamos inseridos, mas sua arte é capaz de nos fazer esquecer, pelo menos por algumas horas, que precisamos correr.

É com esse tipo de criação artística que deveríamos nos acostumar. A arte, desde que o mundo é mundo, contesta padrões. Exigir que artistas não façam isso é colocá-los em uma prisão e condenar a criatividade à morte. Já que não podemos fugir das amarras do capitalismo no mundo real, que saibamos aproveitar a ficção para isso. Esse é um grande privilégio que só a arte consegue nos proporcionar.

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