Adaptajuv: Justiça, Adaptação e Gestão de Riscos Climáticos

O programa Adaptajuv, liderado pelo @Greenpeace e @Clima de Eleição, oferece formação teórica e prática sobre políticas públicas relacionadas à crise climática, com ênfase na adaptação a eventos extremos em áreas urbanas, justiça climática e advocacy. O programa também enfatiza a necessidade de adaptar políticas climáticas envolvendo a juventude de forma acessível e profunda na conscientização e ação climática. As aulas iniciais têm destacado a necessidade de descentralizar a política climática, investir na prevenção de desastres e promover estratégias de adaptação, especialmente em áreas urbanas desfavorecidas. A desigualdade socioambiental e o racismo ambiental são evidenciados em nosso entorno, com a distribuição desigual de infraestrutura e serviços básicos nas cidades, exacerbando os impactos da crise climática.

Por Vitor Ranieri

Recentemente, teve início um programa de formação teórica e prática sobre políticas públicas voltadas à crise climática, o Adaptajuv. Liderado pelo Greenpeace e pelo Clima de Eleição, a capacitação vai até novembro deste ano, totalizando 12 semanas com enfoque em temas relacionados ao meio ambiente e ação climática. Contando com uma série de professores, pesquisadores e mobilizadores da pauta climática, eu faço parte do time de representantes de coletivos que levantam discussões sobre clima, como a AJN e vim contar parte da minha trilha até aqui.

Aula Inaugural do Adaptajuv – 29/08

As primeiras aulas já conseguiram trazer a profundidade das discussões diante do cenário crítico da crise climática no mundo, mostrando a essencialidade de adotarmos estratégias para a adaptação climática. Durante a 3ª aula, ministrada pelos professores Diosmar Filho e Victor Marchezini, falamos muito sobre a descentralização da política climática, os investimentos em prevenção de desastres e algumas das principais estratégias para a adaptação do clima, sendo elas: a  capacitação nas cidades, o respeito à ancestralidade e a utilização de evidências científicas para orientar o planejamento urbano, contrapondo as fundamentações urbanistas que só servem para construir “beautys cities” disfuncionais e com baixa a sobrevivência social.

Exemplificadamente, quando adentramos no processo da adaptação climática urbana, um estudo do Instituto Pólis mostra que, nas cidades de São Paulo (SP), Recife (PE) e Belém (PA), os efeitos da crise ambiental, como inundações, enchentes e deslizamentos, se manifestam de forma territorialmente desigual, impactando desproporcionalmente pessoas negras, famílias de menor poder aquisitivo e domicílios chefiados por mulheres com renda de até um salário mínimo. 

Não restam dúvidas de que a injustiça socioambiental e o racismo ambiental também se manifestam através do próprio planejamento urbano, cuja má distribuição de infraestruturas de serviços básicos é definidor das desigualdades estruturantes e vulnerabilidades aos eventos climáticos. A privação do acesso à água potável, a ausência de esgotamento sanitário, assim como as ocorrências de inundações, alagamentos e deslizamentos, também colaboraram com a reprodução das desigualdades urbanas, sociais e raciais nas cidades.

A crise climática e seus impactos ambientais nas cidades não se expressam apenas pela exposição desproporcional de grupos vulneráveis a riscos geológicos ou hidrológicos. Ou seja, no contexto urbano, as injustiças socioambientais e o racismo ambiental também dão conta de produzir efeitos desiguais para a saúde coletiva.

Segundo o 6° RELATÓRIO DO IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), as emissões globais de gases de efeito estufa continuam aumentando, mas para limitar o aquecimento a 1,5°C, os efeitos de gases estufa precisam parar de crescer em 2025, ou os índices de catástrofes ambientais serão intensificados. Além disso, o relatório enfatiza que para manter o aumento da temperatura global dentro do limite de 1,5°C será impossível sem a remoção de carbono. Essa proposição também é apresentada no episódio sobre Justiça Ambiental e Racial do Papo da Cidade: 16 – Edição Especial Cidade da Gente: Justiça Ambiental e Racial. Lá você vai conseguir pegar parte do raciocínio de algumas das discussões que a formação tem levantado.

Diante desse cenário, esse diálogo sobre crise climática precisa sair do imagético de observação do urso polar no pólo norte que está ficando sem gelo, como podemos ver na imagem abaixo, e aponta a necessidade de trazer a discussão para perto, para o dia a dia da população periférica, fazer um trabalho de base que mostre os impactos em todos as áreas da nossa vida e de nossas famílias.

Imagem retirada da 2ª aula sobre justiça climática.

“A política climática precisa chegar no chão”

Diosmar Filho

O professor Diosmar, doutor em geografia  com formação na Universidade Federal da Bahia, traz o sumário/plano de adaptação climática criado por ele e por outras colegas – Iyaleta – Mídia. O plano aponta como a  realidade climática de 2015 a 2021 tem se agravado, e em como a garantia de adaptação e política climática são essenciais. O que fundamenta a ideia de que quando levamos a pauta climática “no chão” é sobre ter consciência que ao mesmo tempo que a política climática avançou em alguns aspectos, ela não alterou as vulnerabilidades sociais. E por isso, essas vulnerabilidades precisam ser informadas, para que em conjunto nós possamos nos mobilizar.

Por um lado, a injustiça climática reverbera no nosso entorno, do acordar ao deitar, obviamente, intensificado para quem é dissidente e vive as problemáticas das desigualdades sociais.

Imagem retirada da aula | Taxa de pessoas mortas nos últimos anos por desastres ambientais – dados que apontam o conceito de “desadaptação climática”.
Imagem retirada da aula | Proporção de população urbana em assentamento precários, assentamentos informais ou domicílios inadequados no Censo 2010 (%).

Por outro lado, os estudos apontam como a grande maioria das pessoas vivem em regiões inseguras. Ou seja, é fato que vivemos a gestão dos riscos climáticos na nossa vida diariamente.

Em suma, além de todos os dados super importantes para o debate climático, também é possível o exercício das temáticas apresentadas através de atividades durante a formação. Como por exemplo a que está a abaixo: 

Atividade 1 – Aula: Introdução à crise climática na perspectiva da justiça climática.

Essa foi a primeira proposta da formação: deveríamos criar uma manchete que gostaríamos de ver daqui a alguns anos. Pensar quase que distopicamente sobre o seu território, entender quais perspectivas poderiam existir e quais políticas públicas deveriam ser realizadas. 

Falar sobre o Rio Verde é pessoal; contrapor a realidade que vivencio com essa notícia efetivamente é distópico. O rio verde corta o município de Itaquera em São Paulo e é causador de diversas enchentes e alagamentos há mais de 30 anos, ou melhor, o sufocamento do rio causa esses transtornos em grande escala para a população constantemente. Provocado essencialmente pela falta de um planejamento urbano que pensasse cuidadosamente no território e em sua geografia.

Quando olho para o meu entorno, já vi muitos dos lugares onde morei em níveis de sucateamento e esquecimento do poder público. Mas até hoje o de nenhum distrito chega perto do de Itaquera. Em contrapartida, até hoje as ruas do bairro onde morei 5 anos na minha infância, localizada no Jd. Campos Elíseos em Itanhaém (cidade litorânea do Estado de São Paulo), não possui saneamento e nem mesmo escoamento para as chuvas. Em épocas de grandes chuvas a comunidade precisa entrar em suas casas com a água quase na cintura. Luiza Lian, multiartista e cantora, em uma de suas músicas fala sobre esse conceito de cidade eficiente que na verdade só produz desamparo e prejuízos para a população. Paralelamente, mesmo que eu já tenha visto tantos sucateamentos como esse em Itanhaém, o processo urbanístico de Itaquera é o que reflete com mais profundidade as discussões das últimas aulas do Adaptajuv.

“Essa rua tem o nome de um rio que a cidade sufocou, A vontade do rio de voltar, Às vezes sacode de algum lugar, Ele dorme até a chuva chegar, Mas a tempestade vem anunciar, E uma enchente lembra a população, Que o que é rua antes era vazão.”

Trecho da música “Larinhas” de Luiza Luiza.


Segundo dados da Rede Nossa São Paulo, datados do ano de 2022, a idade média para morrer em Itaquera é de 65,3 anos, sendo um pouco abaixo da média da cidade de São Paulo que é de 68,1. A conhecida “roça itaquera” é considerada um dos maiores distritos sociodemográficos da cidade de São Paulo, com pouquíssimas opções de lazer e até os dias de hoje servindo como dormitório populacional. Para quem mora em Itaquera as áreas de risco são diversas e as que alagam quando chove, sempre que o tempo fecha, começam os problemas. Neste início de ano, por exemplo, muitos itaquerenses passaram por situações de sentir pânico. Pessoas sendo levadas pela correnteza, a perda de uma criança que foi levada pela enxurrada e encontrada sem vida no Rio Tietê, ruas que viraram verdadeiros rios, carros submersos, casas e comércios com água que chegaram a 2 metros, árvores caídas e muita lama. A oportunidade de morar em uma região segura e íngreme tornou os dias menos desesperadores para mim e meu pai, porém a situação nem sempre é de mansidão para todos.

Quando converso com meu pai, nascido de parteira no município há 67 anos, ele enfatiza que tudo piorou quando as “reformas de merda do Malluf” mudaram a canalização do Rio Jacu. As promessas públicas de “melhorias promissoras” para Itaquera não são de hoje, quando foi anunciado que, em 2010, o Estádio do Corinthians teria em seus arredores centro de convenções, hotel, receberia shows e criaria muitos empregos no extremo da Zona Leste, alguns moradores como o meu pai já desconfiavam que era uma furada. Um parque industrial foi prometido para a região durante a ditadura militar. Em 2011, a promessa mudou – seria um parque tecnológico. Prefeitos de diferentes partidos anunciaram incentivos fiscais. No episódio do #SaoPauloNasAlturas, você consegue ver os muitos erros na implantação de empreendimentos milionários no bairro que não provocaram o desenvolvimento divulgado, nem geração sustentável de empregos ou sequer urbanidade, ou seja, outra furada.

Como em muitas outras estações de metrô, não há moradia por perto e pessoas como eu têm que se deslocar de ônibus até elas para pegar o trem ou metrô. Neste programa, os arquitetos Rita Canutti e Lucas Nobre, ambos de Itaquera, falam das idas e vindas em quarenta anos de anúncios. E o correspondente da Globo em Paris, Marcelo Courrege, conta como estádios na Europa mudaram para melhor suas vizinhanças. Já o estádio do Corinthians não provocou o mesmo, pelo contrário, gerou terrenos baldios, falta de circulação na região e outros problemas de escoamento para bairros próximos aos arredores.

Atividade 2 da Aula Introdução a adaptação climática e a Gestão de riscos a desastres | “Itaquerão alagado, e o seu rio?”

A leitura desse texto pode nos trazer uma série de sentimentos profundos e reflexivos. É impossível não sentir uma mistura de preocupação e indignação diante da crise climática que enfrentamos, de suas consequências desiguais, principalmente daquelas que nos afetam diretamente e que afetam de maneira mais intensa as pessoas que amamos. A injustiça socioambiental e o racismo ambiental são questões que nos fazem refletir sobre as desigualdades estruturais em nossa sociedade. Viver em Itaquera é lindo. Para alguém que durante muito tempo não teve um lugar para chamar de seu, hoje sou muito feliz em morar aqui. Mas como dormir em paz sabendo que esse território é desprovido de tantos acessos?

Ao mesmo tempo, a formação me traz uma faísca de esperança, pois mostra que existem pessoas comprometidas em buscar soluções para esses problemas. O programa Adaptajuv tem como objetivo mostrar essa urgência das ações climáticas e capacitar jovens a se tornarem agentes de mudança. Jovens que acreditam minimamente na transformação.

A citação do professor Diosmar sobre a política climática precisar “chegar no chão” ressoa profundamente até aqui, lembrando-nos da importância de trazer as discussões sobre a crise climática para o contexto das comunidades e das pessoas comuns, que são as mais afetadas por esses problemas.

Este texto é um apelo à ação, à justiça climática e à solidariedade para enfrentarmos juntos os desafios que o futuro nos reserva. Ao longo das atividades, vou trazer aqui pra AJN mais ideias compartilhadas pelos professores para enriquecer nossas reflexões. Você vem comigo?

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