A importância do protagonismo das mulheres negras na inovação e na tecnologia brasileira

Uma chamada para ações afirmativas que desenvolvam o protagonismo de mulheres negras no mercado de trabalho.

Por Thaynara Floriano, da Redação – Agência Jovem de Notícias.

A ampliação do debate dentro dos encontros do projeto MUDE com Elas tem como objetivo alcançar cada vez mais as juventudes, para que as reflexões sejam o primeiro passo para a busca da transformação dentro dos espaços de trabalho.  Para isso, é necessário o combate ao racismo institucional para que seja possível direcionar não só vagas de emprego à juventude negra, mas o preparo para cargos de liderança. Como exemplo, em 2021, a Ação Educativa sistematizou a sua experiência na construção coletiva de vias para a promoção da igualdade racial em todos os níveis e contextos de sua atuação a partir do enfrentamento ao racismo institucional. Em parceria com a Abong, lançou uma Cartilha de Combate ao Racismo Institucional,  que está disponível para download e que pode ser fonte de inspiração de práticas diretas de transformação no acolhimento institucional de jovens mulheres negras no mercado de trabalho.

Cada encontro se materializa na ideia além do sonho: com esses espaços, o desejo é abrir caminhos para que seja possível direcionar essa mudança e estimular jovens a participarem ativamente de atividades que estejam vinculadas a estratégias que melhoram a condição de vida de muitos cidadãos. 

A tecnologia, que hoje impulsiona os maiores investimentos lucrativos no setor dos negócios, se tornou uma grande ferramenta no cotidiano das pessoas; e mesmo com esse grande alcance e muitas oportunidades, o mercado de trabalho continua excluindo mulheres negras. A falta de representatividade nas empresas é um dos motivos para que a desigualdade nos salários e a ausência de mulheres negras em cargos de liderança continue acontecendo.

O espaço tecnológico é dominado majoritariamente por homens brancos, que recebem uma renda maior do que grande parte da população. O setor passou por um processo comum a vários segmentos: o apagamento e a exclusão de pessoas pretas.De acordo com o Relatório de Diversidade, realizado pela Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais (Brasscom), em 2020, apenas 30,4% dos profissionais vinculados ao setor de TICs (software, serviços, indústria e comércio) eram pretos e pardos, enquanto que 57,4% são brancos e asiáticos.

O 6º encontro de reflexão

No final do mês de julho, aconteceu o 6º Encontro de Reflexão do projeto Mude com Elas, no qual foram debatidas as oportunidades e o futuro das mulheres negras no mercado de ciência e tecnologia, com a participação de duas convidadas especiais: Raphaela Caldas (Programadora na IBM) e Samantha Neves (Participante da ação afirmativa Next Step da Google). A atividade foi mediada por Lucia Udemezue, Coordenadora do MUDE com Elas pela Ação Educativa.

O que é tecnologia?

Ao contrário do que estamos acostumados a associar, a tecnologia não está somente relacionada a máquinas ou itens eletrônicos: ela representa um conjunto de técnicas e de conhecimento que tem como finalidade a resolução de problemas sociais. Dessa maneira, a tecnologia é uma aliada na busca de melhorias para a qualidade de vida das pessoas.

Junto com a tecnologia, o pensamento crítico e a resolução de problemas são um importante conjunto para a manutenção do sistema social. Elas tornam as pessoas capazes tomar decisões assertivas sobre seus assuntos pessoais e cívicos. 

Dialogar esses temas com a juventude é importante para o pensar criticamente e trabalhar no avanço social. Os estudantes podem usar essas habilidades para planejar e conduzir pesquisas, gerenciar projetos, resolver problemas e tomar decisões, usando ferramentas e recursos digitais apropriados.

Muitos jovens ainda acham difícil alcançar padrões de aprendizado para explorar essas competências ou acreditam que determinadas posições não foram feitas para eles. O incentivo e estímulo ao protagonismo de jovens mulheres negras no mercado de trabalho pode proporcionar múltiplos aprendizados e direcionar o destino da nossa sociedade.

Ações afirmativas: um exemplo do Google

O Next Step é um programa de estágio do Google que, desde 2019, busca aumentar a representatividade de pessoas negras entre colaboradores da empresa, disponibilizando vagas nas áreas de Negócios e Engenharia de Software para jovens estudantes do setor.

Samantha Neves nos trouxe alguns detalhes de como o programa de estágio funciona durante o encontro de reflexão.. Com duração de 2 anos e diversos treinamentos relacionados aos produtos Google. A empresa também oferece uma rede de mentores que serão responsáveis por ajudá-los com qualquer tipo de atividade.

Um importante posicionamento é não exigir conhecimento em inglês, para que a habilidade não seja fator excludente na seleção, e oferece aulas do idioma custeadas pela empresa para os participantes.

O investimento em equidade racial no mercado de trabalho é urgente e deve ser responsabilidade de todas as organizações. O Next Step é uma das iniciativas que fazem parte do comprometimento global do Google em aumentar em 30% a representatividade de pessoas negras em cargos de liderança, criar um senso de pertencimento para grupos que sempre foram excluídos e dobrar as pessoas negras em todos os setores até 2025.

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), às mulheres negras foram impostos ganhos 48% menores que para outros perfis, e elas somam quase o dobro da taxa de desemprego na comparação com homens não-negros. Especificamente na área de tecnologia, existe uma “falta” média de 24 mil profissionais por ano, segundo a própria Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom). O que significa que o mercado de trabalho exclui uma parcela da população mesmo precisando daquela mão de obra. O racismo institucional ‘prefere’ não selecionar ou não investir em qualificar pessoas negras, do que oferecer a chance de elas estarem dentro das empresas, contribuindo para a diversidade, manutenção, crescimento e lucro.

De tempos em tempos, viraliza nas redes sociais fotos corporativas em que a falta de mulheres negras nas imagens é assustadora; esse é um quadro de desigualdade social presente em muitos espaços do nosso país.

A falta de oportunidades de trabalho e crescimento profissional direcionadas a jovens mulheres negras na produção de inovação do Brasil – como o caso da Next Step – desperdiça alternativas de avanço tecnológico, além de travar ainda mais o enfrentamento das desigualdades. Com um processo tecnológico pouco diverso e representativo, o país se mantém refém de tecnologias e práticas que não representam todas as camadas sociais e continua operando contra a maioria da população.

Assim, ações afirmativas de representatividade, além de abrirem portas e espaços para formação de importantes lideranças, como discorrido ao longo do tema, podem garantir oportunidades para outras mulheres negras, bem como reforçar o movimento de mudança, inserindo cada vez mais mulheres negras em lugares significativos e de autoridade e rompendo o ciclo de exclusão e hegemonia branca.

Trago duas pequenas falas das convidadas do encontro para refletirmos na conclusão deste artigo:

Diversificar os espaços para que políticas de inclusão contribuam nas ações afirmativas de transformação social é essencial para o crescimento social e econômico do Brasil. Seguimos em rede!

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Sobre o projeto

O MUDE com Elas – Multiatores superando a desigualdade de gênero e raça é uma iniciativa implementada em parceria pela Ação Educativa e pelo escritório da Terres des Hommes Alemanha em São Paulo, com apoio da Viração Educomunicação por meio da Agência Jovem de Notícias.

Mulher preta usando teclado. Imagem: Fundo Baobá / Reprodução

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