A Era da Descontextualização

Uma reflexão sobre os desafios enfrentados na era da informação digital, onde a quantidade de dados disponíveis é abundante, mas a compreensão profunda e a análise crítica muitas vezes são negligenciadas.

Por Guilherme Leutwiler

 Vivemos numa época em que a informação está disponível de forma abundante, facilmente acessível em questão de segundos através de nossos dispositivos eletrônicos. No entanto, a facilidade de acesso à informação não vem necessariamente acompanhada de uma compreensão mais profunda ou de uma análise crítica dos conteúdos. Pelo contrário, muitas vezes nos contentamos em receber informações de forma superficial, sem nos preocuparmos com seu contexto ou veracidade.

No mundo digital, a informação é uma moeda de troca que circula freneticamente pelas redes sociais, sites de notícias e aplicativos de mensagens instantâneas. Neste turbilhão de dados, somos constantemente bombardeados por notícias, memes, vídeos e opiniões diversas (muitas delas bastante questionáveis).

A velocidade com que as informações são produzidas e propagadas supera, e muito, nossa capacidade de processamento e entendimento das coisas ao nosso redor. Derrick de Kerckhove, nas suas reflexões sobre a sociedade digital, aponta para o fenômeno da E-motividade, em que o tsunami de informações gerado pelas mídias e a chegada delas de forma ultrarrápida sobrecarrega a parte do nosso cérebro responsável pela reflexão e ponderação, acessando uma parte mais primitiva do cérebro, levando-nos a reações impulsivas e instintivas. Portanto, existimos no espaço digital de forma mais emocional do que racional.

São os aspectos da e-motividade e da hiper aceleração que escancaram uma ameaça real ao nosso discernimento sobre o mundo, surgindo uma preocupação global no meio disso tudo: a descontextualização.

Podemos entender a descontextualização como a fragmentação do conhecimento, sua retirada do ambiente que lhe dá sentido e significado, a transformação da informação em um simples produto e/ou viés que faz girar a roda dos likes e do engajamento, lubrificando a engrenagem do lucro daqueles que controlam o ciberespaço.

É como se estivéssemos navegando por um oceano de dados sem uma bússola para nos guiar, acreditando que as grandes corporações (ou os grandes ‘empresários’) irão ajudar na busca por uma terra firme. O problema é quando nos damos conta que nosso barco está afundando e nenhuma grande corporação ou empresário irá nos ajudar – eles estão muito ocupados fazendo a manutenção das suas formas de poder.

A lógica neoliberal, responsável por essa manutenção das formas de poder, promove ainda a ideia de que mais informação é sempre melhor, incentivando um consumo desenfreado de conteúdo e uma busca incessante por novidades e atualizações. Além disso, essa lógica também influencia o modo como as informações são produzidas, disseminadas e consumidas, muitas vezes em detrimento da qualidade, da veracidade e da diversidade de pontos de vista, reforçando seu viés ideológico de dominação e opressão a partir dos aparatos midiáticos.

As mídias e as redes sociais, por sua vez, são ótimas ferramentas de controle e manipulação, especialmente em sociedades marcadas pela desigualdade e pela concentração de poder. O consumo pelo consumo e a mercantilização das pautas influencia a produção e a circulação de informações que promovem uma visão limitada e objetificada do mundo e das relações sociais.

Assim, as notícias chegam até nós em pequenos pedaços, desprovidas de seu contexto original, e somos incentivados a compartilhá-las sem questionar sua veracidade ou relevância. O objetivo, como já explanado, é transformar o engajamento em poder, sem qualquer preocupação com a formação de um conhecimento sólido, contextualizado e crítico, inexistindo uma ética das plataformas.

O sociólogo e filósofo Edgar Morin nos lembra que o conhecimento verdadeiro só pode ser construído a partir da contextualização da informação. É através da contextualização de determinada ideia, fato ou notícia que atribuímos um significado mais profundo a eles e que conseguimos estabelecer relações entre as partes, unificando o pensamento. Entretanto, na era da descontextualização, a informação fragmentada, incompleta e manipulada vale ($) muito mais.

Somos então confrontados com um pequeno e incômodo questionamento: continuaremos a consumir informações de forma passiva, aceitando-as sem questionar, ou buscaremos ativamente entender o contexto – e a mensagem – por trás delas?

A resposta para essa pergunta pode determinar não apenas a qualidade do nosso conhecimento e compreensão das relações do mundo, mas também o destino da sociedade na qual vivemos. Afinal, em um mundo cada vez mais complexo e interconectado, a capacidade de contextualizar a informação e estabelecer um pensamento crítico pode ser a chave para enfrentar os desafios que já estão colocados à nossa frente.

Paul Virilio aponta também que o ritmo acelerado da tecnologia e da informação pode resultar em uma perda de perspectiva de vida e de compreensão do mundo, uma vez que a realidade passou a ser definida também pela dimensão virtual, onde se pode estar em todos e em nenhum lugar ao mesmo tempo, perdendo assim a noção e o referencial de tempo e espaço.

Para o filósofo, vivemos uma incessante corrida, uma tirania da velocidade (que ele chama de dromologia) contra nosso tempo biológico, tentando sempre alcançar o ritmo frenético das mídias e das tecnologias, e não sobrando tempo para reflexão, consequentemente intensificando a superficialidade.

No entanto, ele nos dá um caminho para a resistência: o teatro e a dança.

O autor defende que a materialidade dos corpos – e sua capacidade de afetar e ser afetado artisticamente – são linhas de resistência contra a dimensão imaterial e acelerada da internet. Assim, o teatro e a dança são artes do corpo por excelência, e é necessário preservar essa materialidade contra o ímpeto de virtualização do mundo.

Ainda, Paul alerta que o desequilíbrio e dissincronia crescente entre o tempo biológico e do tempo virtual/digital perturba gravemente o ambiente econômico, político e cultural, ameaçando a democracia na medida em que diminui o tempo/espaço da reflexão e da decisão.

Portanto, a descontextualização da informação representa um obstáculo ao desenvolvimento de uma sociedade mais informada e consciente. Ao consumirmos informações de forma descontextualizada, corremos o risco de perpetuar narrativas distorcidas que levam também à alienação, à superficialidade das relações humanas e à disseminação de desinformação ou fake news, usadas como forma de desviar a atenção das questões sociais e políticas mais profundas, mantendo os usuários ocupados com informações superficiais e consumistas.

É fundamental nos conscientizarmos sobre os perigos da descontextualização e cultivarmos o hábito de questionar e englobar as informações que recebemos no seu devido contexto histórico, social, político, econômico e cultural.

Finalmente, é de extrema importância e urgência a atenção nas discussões sobre regulamentação da mídia, tão necessária para garantir direitos e deveres no mundo digital, além de promover a transparência e a responsabilidade na disseminação de informações.

A regulamentação da mídia pode estabelecer padrões éticos e de qualidade para os conteúdos veiculados, protegendo os usuários contra a propagação de discursos de ódio, desinformação e manipulação. Além disso, pode garantir a diversidade de vozes e perspectivas, evitando a concentração de poder nas mãos de poucos conglomerados de mídia.

Consumir conteúdos que promovam uma educação midiática e que se preocupam com a contextualização e criticidade das informações também é de suma importância para uma boa convivência social-digital. Exercendo o que podemos chamar de ‘jornalismo educomunicativo’, cujo objetivo é a abertura do diálogo, a responsabilidade educativa e o uso ético das mídias e plataformas, além de capacitar a comunidade, fornecendo-lhes ferramentas e conhecimentos necessários para sua participação ativa tanto nos domínios do mundo real, quanto no digital. 

É possível encontrar um exemplo de jornalismo educomunicativo independente no próprio espaço da Agência Jovem de Notícias (AJN), que busca promover valores como inclusão, diversidade, diálogo e engajamento cívico ao abrir espaço para vozes e perspectivas jovens, e que contribui para uma mídia mais plural e representativa, bem como estimula o debate e a conscientização sobre questões e pautas sociais importantes na vida contemporânea.

Além disso, destaco e indico dois podcasts com essa mesma intencionalidade educomunicativa: Rádio Novelo Apresenta, que conta diferentes histórias das mais diversas formas, perspectivas e temas, prezando sempre pela investigação, contextualização e abertura de espaços para participação social; e o podcast Ciência Suja, que aborda as histórias “lado b” da ciência e reconstrói o contexto por trás delas, incentivando o pensamento crítico e a divulgação científica.

Por fim, é imprescindível cultivarmos o pensamento crítico como uma habilidade essencial para navegar no mar de informações disponíveis. Devemos aprender a analisar, contextualizar e verificar as fontes das informações que recebemos, questionando sempre os interesses por trás delas e buscando múltiplas perspectivas. Somente assim poderemos construir um conhecimento sólido e resistir à manipulação e à descontextualização da informação, contribuindo para uma sociedade mais consciente e democrática.

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